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Segunda-feira, Junho 20, 2005
NOZ DE FOGO - VITORINO NEMÉSIO Tu me deste a Palavra, a noz do fogo Se o miolo te ficou tenho os dedos queimados. Dá Deus nozes, Senhor... Sem dentes, desde logo, Teu Banquete revolta os desdentados. O Pão esperou na Voz fome e saliva Ninguém comeu senão da própria suficiência: Ao menos o Menino tem gengiva, Saboreia a inocência. Tende piedade dos Críticos, Dai-lhes o Best-Seller Engrossarão o seu coro. Tudo o que for Sentido - desterrado E oculto no choro! Fazei guardar por anjos A Significação E em nossa carne eles tenham Ceva e consolação. À entrada do Verbo, imo da Morte, Ponde uma folha a espada: Guardaremos a Vida e o sangue ao Norte Do Nada. Vitorino Nemésio Publicado por João Carvalho Fernandes às 09:00 PM no Fumaças. Sábado, Junho 18, 2005
se eu pudesse pudesse eu descolar os olhos do oceano, onde permanecem fixos, verdes como se fossem metáfora. talvez eles viajassem outras viagens, talvez lessem poemas, talvez mirassem carinhosamente outras paragens. pudesse eu não ter impregnado em mim o cheiro marítimo, salgado como se fosse lágrima derramada. talvez sentisse outros sabores, talvez entregasse a pele a algum lábio rouco. talvez respirasse um ar desconhecido e louco. pudesse eu não ter esta presença vívida, a tua ausência cotidiana, aguda, como se fosse fantasma ou surto delirante. talvez minha razão fosse outra, talvez empreendesse uma viagem solo, talvez alcançasse as cores todas da aquarela. mas não, são sempre meus os olhos no horizonte. olhos que vagam, lassos, verdes, no oceano. silvia chueire in Eugenia In The Meadow memória a memória de ti me abraça súbita afoga? cortante reabre a ferida quase cicatrizada resvalo docemente no veneno eficaz sem saída e eu que pensara poder driblar o óbvio como se o corpo se enganasse silvia chueire in Eugenia In The Meadow Ocupamos a paisagem que, desocupada, se ocupa de nós. Tempo de ocupação, este. Somos o estrangeiro que o silêncio de paredes brancas e esquecidas perturbou. Extasiado ao menor rumor de um estio duro e claro -- todo lâminas. Perplexo da memória destes dias sufocados em tédio e cal. Da palavra para a pedra arrastando-se aquáticos -- as mais sazonadas as menos polidas. Crestada que foi, na raiz do tempo, toda a subliminar tentativa de retorno. Eduardo Pitta, retirado ao seu sítio na Internet (há lá mais!). Retirado ao Almocreve das Petas [Amor] "Amor, que te dizer, quando honesto relógio junto à cama é laranja de que restam só dois gomos? Amor, que te dizer, Quando o gosto azedo desta pressa Mancha os lençóis usados Da pensão? Amor?" [Eduardo Guerra Carneiro, in Isto anda tudo ligado, 1970] Mais um retirado do Rua da Judiaria: O fim do homem é a morte June 13th, 2005 Olho para o mundo ¿ e ele assemelha-se a um jardim com as suas crianças de permeio, como erva. Alguns, cuja memória é como a fragrância do bálsamo, e outros, cujos rebentos são como feno. Mas sobre todos a Morte empunha a sua foice, e a sepultura guardará esta colheita. Contemplo os túmulos de outras eras, de dias antigos, onde pessoas dormem o eterno sono. Não há inimizade entre estas gentes ¿ não há inveja; Não há amor nem há ódio; E o meu pensamento, vislumbrando-os, falha em discernir o mestre do escravo. Onde estão todos os túmulos de todos os homens que morreram na terra desde os dias de outrora? Uma sepultura é cavada sobre outra, e corpos são enterrados sobre corpos; em buracos na terra eles jazem juntos ¿ os pedaços de cal e as pedras preciosas. Moisés ben Jacob Ha-Sallah ibn Ezra (conhecido em árabe como Abu Harun Musa) (1070-1138), judeu de Granada. Filósofo, linguista e poeta medieval. Em memória de Eugénio de Andrade e Álvaro Cunhal. Eugénio de Andrade. Adeus português. Tinham o rosto aberto a quem passava. Tinham lendas e mitos e frio no coração. Tinham jardins onde a lua passeava de mãos dadas com a água e um anjo de pedra por irmão. Tinham como toda a gente o milagre de cada dia escorrendo pelos telhados; e olhos de oiro onde ardiam os sonhos mais tresmalhados. Tinham fome e sede como os bichos, e silêncio à roda dos seus passos. Mas a cada gesto que faziam um pássaro nascia dos seus dedos e deslumbrado penetrava nos espaços. Francisco José Viegas in Aviz Roubado ao excelente Rua da Judiaria (espero que o Nuno Guerreiro não se importe): A beleza das estrelas June 17th, 2005 Contemplo a beleza das estrelas que cobrem a face dos céus, Imagino-as como um jardim em flor ¿ Até que a alva alba sobe, como pomba, Debaixo das asas de um corvo Que esvoaça para longe. Moisés ibn Ezra (1070-1138), filósofo, linguista e poeta medieval. Judeu de Granada. Who Links Here |
27 de Dezembro de 2005