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Segunda-feira, Abril 18, 2005
na noite na noite entre enganos dizemos alguma coisa que parece prece entre as horas longuíssimas da madrugada mulheres e homens dão passos em falso sabendo no íntimo que é assim. guardam o afeto nalgum canto obscuro e já não distinguem o que há. se mãos vazias amor desmedido ou apenas procura vã e lágrimas inevitáveis. silvia chueire, in eugeniainthemeadow Definitivo Água e terra tomam-se na fúria do princípio, morre-se escondidamente algures em silêncios que ninguém deplora e o tempo é de risadas ígneas sem pudor. Aqui nada ¿ silêncio da manhã que nasce como as outras: doçura envenenada dos dias e tudo tão quieto excepto o peito e o ensaio de um poema. Não serve para nada o poema: não resgata não limpa não sara. Antes um vidro quebrado e o corte limpo da aresta suja no centro do peito ou do mundo. Soledade Santos, in Nocturno com Gatos. As pedras As pedras falam? pois falam mas não à nossa maneira, que todas as coisas sabem uma história que não calam. Debaixo dos nossos pés ou dentro da nossa mão o que pensarão de nós? O que de nós pensarão? As pedras cantam nos lagos choram no meio da rua tremem de frio e de medo quando a noite é fria e escura. Riem nos muros ao sol, no fundo do mar se esquecem. Umas partem como aves e nem mais tarde regressam. Brilham quando a chuva cai. Vestem-se de musgo verde em casa velha ou em fonte que saiba matar a sede. Foi de duas pedras duras que a faísca rebentou: uma germinou em flor e a outra nos céus voou. As pedras falam? pois falam. Só as entende quem quer, que todas as coisas têm um coisa para dizer. (Maria Alberta Menéres) (retirado ao Abrigo de Pastora) Nem sempre sou igual no que digo e escrevo. Nem sempre sou igual no que digo e escrevo. Mudo, mas não mudo muito. A cor das flores não é a mesma ao sol De que quando uma nuvem passa Ou quando entra a noite E as flores são cor da sombra. Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores. Por isso quando pareço não concordar comigo, Reparem bem para mim: Se estava virado para a direita, Voltei-me agora para a esquerda, Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés ¿ O mesmo sempre, graças ao céu e à terra E aos meus olhos e ouvidos atentos E à minha clara simplicidade de alma... (Alberto Caeiro) (retirado ao Abrigo de Pastora) Eating Poetry Ink runs from the corners of my mouth. There is no happiness like mine. I have been eating poetry. The librarian does not believe what she sees. Her eyes are sad and she walks with her hands in her dress. The poems are gone. The light is dim. The dogs are on the basement stairs and coming up. Their eyeballs roll, their blond legs burn like brush. The poor librarian begins to stamp her feet and weep. She does not understand. When I get on my knees and lick her hand, she screams. I am a new man. I snarl at her and bark. I romp with joy in the bookish dark. (Mark Strand) (retirado ao Abrigo de Pastora) A fome de Camões Este vulto, portanto, que caminha Altas horas, ao frio das nortadas, É Camões que se definha Nas ruas de Lisboa abandonadas. É Camões que a sorte vil, mesquinha, Faz em noites de fome torturadas, Ele o velho cantor de heróis guerreiros!... Vagar errante como os vis rafeiros. Morreu-lhe o escravo, o seu fiel amigo, O seu amparo e seu bordão no mundo, Morreu-lhe o humilde companheiro antigo, No seu vácuo deixando um vácuo fundo. Hoje, pois, triste, velho, sem abrigo, Faminto, abandonado e vagabundo, Tenta esmolar também pelas esquinas. Ó lágrimas!... Ó glória! Ó ruínas!... (Gomes Leal) (retirado ao Abrigo de Pastora) Odeio este tempo detergente Odeio este tempo detergente um tempo português que até utilizou os primeiros acordes da quinta sinfonia de beethoven como indicativo da voz do ocidente chamada actualmente a emissão em línguas estrangeiras um tempo que parou e só mudou o nome que puseram num mundo que muda a coisas que afinal permaneceram um tempo português que alguma vez até em camões vê o antecessor e criador de coisa como a nato com a profética visão de quem consegue conceber tal obra bem pouco literária por sinal e só possível graças à visão de quem com um só olho vê as coisas quatrocentos anos antes Odeio este meu tempo detergente de uma poesia que discreta até se erótica antigamente hoje se prostitui numa publicidade devida a algum poeta público que a certo detergente deu de repente esse teu nome musical de musa a ti precisamente a ti nesse teu rosto sorridente onde o poeta público publicitário porventura viu sobressair teu riso nesse território de alegria e a brancura mais alva nesses dentes alvejar E eu que faço eu aqui em todo este tempo detergente quando sinto subitamente cem saudades tuas que posso que não seja odiar mais um meio que jamais tentaria impedir evitaria um tempo que consente até contente que faças dentro em pouco um ano mais um meio onde nem mesmo eu mulher afinal sei que terei de fazer para deter ao menos um momento essa tua idade a tua juventude se possível anos antes de haver-te conhecido por acaso e já tarde na cidade onde nasceste cidade que unamuno diz viver morrer apenas por amor amor morto ou mortal mas amor imortal cidade solidão as ruas muita gente os sons o sol difusos e confusos corredores de uma faculdade folhas que se renovam rostos que outros rostos tão firmes tão presentes permanentes um só ano antes friamente destroem sem deixar sequer ao menos uma marca nessa fria impassível pedra o tempo os sóis dos séculos cingindo os cintos da cidade dessa cidade onde o povo morre novo à volta do mesmo monumento destinado a exaltá-lo cidade onde afinal a paisagem é pretexto para o homem cidade portuguesa ó portugal ó parte da hispânia maior maneira triste de se ser ibéria onde da terra emerge o homem que depois o rosto nela imerge ó portugal dos pescadores de espinho espinho do suicida laranjeira espinho praia antiga amiga e conhecida de unamuno a praia dos seus últimos passeios portugueses angústia atlântica e odor ó dor olor a campo praia que so' existe quando alguém a veste coisa que foi somente quando tu mulher a viste Aqui em portugal aqui na vasta praia portuguesa aqui nasci e ao nascer morri como morri a morte que por sorte sempre tive pesadamente do mais alto do meu peso dos meus anos em cada um dos sítios onde um dia estive Aqui tive dezasseis anos aos dezasseis anos aqui só vejo pés há muitos anos já Aqui o meu chapéu de chuva mais ao sul aceita em chapa o sol chapéu que fecho quando fecha o sol definidor do dia Tive um passado agora inacessível um passado tão alto como a torre do relógio da aldeia que pontual pontua a passagem do tempo um tempo não ainda detergente um tempo afinal só visível no sensível alastrar da sombra ao longo desse pátio só possível ao adolescente que mais tarde e mais só e de maneira mais sensível mais só se sentirá no meio da imensa gente que se sentia ali entre a andorinha e a nespereira Não o sabia então mas dominava um mundo esse mundo que espero que me espere um dia ao fundo lá quando findo o dia sob o chão me afundo e ao final em terra e em verdade é que me fundo Mas eu aqui completamente envolto neste tempo detergente é da segunda-feira e da semana que preciso pois posso lutar melhor por uma luz melhor do que esta luz do mar à hora do entardecer É da cidade é da publicidade é da perversidade que preciso e não tenho aqui na praia Não tenho nem o mar nem tão rudimentar a técnica de olhar alguém as minhas mãos para me devassar a vã vida privada É de inverno é domingo estou sozinho aqui na praia regresso a casa à noite apanho eu próprio a roupa no quintal e tenho a sensação de quem alguma coisa faz pela primeira e sente bem ou mal que tarde toma agora o seu banho lustral (Ruy Belo) (retirado ao Abrigo de Pastora) sacrificaram tudo a deus. e o que não sacrificaram a deus sacrificaram pelos vindouros os quais sacrificaram tudo a deus. e o que não sacrificaram a deus sacrificaram pelos vindouros os quais sacrificaram tudo a deus. e o que não sacrificaram a deus sacrificaram pelos vindouros os quais sacrificaram tudo a deus. e o que não sacrificaram a deus sacrificaram pelos vindouros e assim sucessivamente. para os vindouros ainda não. para deus já talvez tenha valido a pena. Alberto Pimenta Obra Quase Incompleta Ed. Fenda, 1990 (retirado ao Divas & Contrabaixos) Sem título não deixes na solidão a linha recta quebra-lhe uma companhia basta um ângulo como ao deserto a duna. Abril 05, Helena F. Monteiro, in Linha de Cabotagem Who Links Here |
27 de Dezembro de 2005