Casa da Poesia |
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Sábado, Março 26, 2005
Para um amigo tenho sempre um relógio esquecido em qualquer fundo de algibeira. Mas esse relógio não marca o tempo inútil. São restos de tabaco e de ternura rápida. É um arco-íris de sombra, quente e trémulo. É um copo de vinho com o meu sangue e o sol. António Ramos Rosa de Viagem através de uma Nebulosa, 1960 in O Poeta na Rua, Antologia Portátil, Ed. quasi (oferta Divas & Contrabaixos) Terça-feira, Março 22, 2005
Roubado ao Fumaças. ESCADA EM CARACOL É uma escada em caracol e que não tem corrimão. Vai a caminho do Sol mas nunca passa do chão. Os degraus, quanto mais altos, mais estragados estão. Nem sustos nem sobressaltos servem sequer de lição. Quem tem medo não a sobe. Quem tem sonhos também não. Há quem chegue a deitar fora O lastro do coração. Sobe-se numa corrida. Corre-se p'rigos em vão. Adivinhaste: é a vida a escada sem corrimão. David Mourão-Ferreira Roubado ao Fumaças. O Captain! My Captain! O CAPTAIN! my Captain! our fearful trip is done, The ship has weather'd every rack, the prize we sought is won, The port is near, the bells I hear, the people all exulting, While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring; But O heart! heart! heart! O the bleeding drops of red, Where on the deck my Captain lies, Fallen cold and dead. O Captain! my Captain! rise up and hear the bells; Rise up¿for you the flag is flung¿for you the bugle trills, For you bouquets and ribbon'd wreaths¿for you the shores a-crowding, For you they call, the swaying mass, their eager faces turning; Here Captain! dear father! This arm beneath your head! It is some dream that on the deck, You've fallen cold and dead. My Captain does not answer, his lips are pale and still, My father does not feel my arm, he has no pulse nor will, The ship is anchor'd safe and sound, its voyage closed and done, From fearful trip the victor ship comes in with object won; Exult O shores, and ring O bells! But I with mournful tread, Walk the deck my Captain lies, Fallen cold and dead. Walt Whitman Roubado ao ABRUPTO. Semântica Electrónica Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado Ordinalmente Ordenadamente Ordeiramente. Mas o desordeiro Quebrou o ordenador E eu já não dou ordens coordenadas Seja a quem for. Então resolvo tomar ordens Menores, maiores, E sou ordenado, Enfim --- o ordenado Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado. --- Mas --- diz-me a ordenança --- Você não pode ordenhar uma máquina: Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca. De mais a mais, você agora é padre, E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha Velhaca, mesmo uma ovelha velha, Quanto mais uma vaca! Pois uma máquina é vicária (você é vigário?): Vaca (em vacância) à vaca. São ordens... Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado, Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa (Para acabar a conversa Como aprendi na Infantaria), Ordenhado chorei meu triste fado. Mas tristeza ordenhada é nata de alegria: E chorei leite condensado, Leite em pó, leite céptico asséptico, Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético! (Vitorino Nemésio) Roubado ao ABRUPTO. Of Politics, & Art --for Allen Here, on the farthest point of the peninsula The winter storm Off the Atlantic shook the schoolhouse. Mrs. Whitimore, dying Of tuberculosis, said it would be after dark Before the snowplow and bus would reach us. She read to us from Melville. How in an almost calamitous moment Of sea hunting Some men in an open boat suddenly found themselves At the still and protected center Of a great herd of whales Where all the females floated on their sides While their young nursed there. The cold frightened whalers Just stared into what they allowed Was the ecstatic lapidary pond of a nursing cow's One visible eyeball. And they were at peace with themselves. Today I listened to a woman say That Melville might Be taught in the next decade. Another woman asked, "And why not?" The first responded, "Because there are No women in his one novel." And Mrs. Whitimore was now reading from the Psalms. Coughing into her handkerchief. Snow above the windows. There was a blue light on her face, breasts and arms. Sometimes a whole civilization can be dying Peacefully in one young woman, in a small heated room With thirty children Rapt, confident and listening to the pure God rendering voice of a storm. (Norman Dubie) Roubado ao Fumaças. Sabes quem sou? Eu não sei. Sabes quem sou? Eu não sei. Outrora, onde o nada foi, Fui o vassalo e o rei. É dupla a dor que me dói. Duas dores eu passei. Fui tudo que pode haver. Ninguém me quis esmolar; E entre o pensar e o ser Senti a vida passar Como um rio sem correr. Fernando Pessoa Roubado ao ABRUPTO. Chansons Innocentes: I in Just- spring when the world is mud- luscious the little lame balloonman whistles far and wee and eddieandbill come running from marbles and piracies and it's spring when the world is puddle-wonderful the queer old balloonman whistles far and wee and bettyandisbel come dancing from hop-scotch and jump-rope and it's spring and the goat-footed balloonMan whistles far and wee (E. E. Cummings) Dia Mundial da Poesia, seja lá o que isso for. Venham lá os vossos poemas favoritos com uma estória a acompanhar. Este espaço sente a vossa falta. Assim vou ter de ir por aí roubando. Que coisa feia. Quinta-feira, Março 03, 2005
Girassol Girassol Rasga a tua indecisão E liberta-te. Vem colar O teu destino Ao suspiro Deste hirto jasmim Que foge ao vento Como Pensamento perdido. Aderido Aos teus flancos Singram navios. Navios sem mares Sem rumos De velas rotas. Amanheceu! Orça o teu leme E entra em mim Antes que o Sol Te desoriente Girassol! Corsino Fortes in "Claridade", n°9, 1960 No Kitanda. A NAVE DE ALCOBAÇA Vazia, vertical, de pedra branca e fria, longa de luz e linhas, do silêncio a arcada sucessiva, madrugada mortal da eternidade, vácuo puro do espaço preenchido, pontiaguda como se transparência cristalina dos céus harmónicos, espessa, côncava de rectas concreção, ar retirado ao tremor último da carne viva, pedra não-pedra que em pilar's se amarra em feixes de brancura, geometria do espírito provável, proporção da essência tripartida, ideograma da muda imensidão que se contrai na perspectiva humana. Ambulatório da expectação tranquila. Nave e cetro, e sepulcral resíduo, tempestade suspensa e transferida. Rosa e tempo Escada horizontal. Cilindro curvo Exemplo e manifesto. Paz e forma do abstracto e do concreto.Hierarquia de uma outra vida sobre a terra. Gesto de pedra branca e fria, sem limites por dentro dos limites. Esperança vazia e vertical Humanidade. Araraquara,Brasil, 27 Novembro 62 Jorge de Sena - in Metamorfoses-Poesia II- Moraes editores, Lisboa,1978 No Ao Longe os Barcos de Flores. À entrada do poema Escuta e fixa-te à luz familiar: a planta que junto da mesa se alçou arbusto nestes anos de fixidez à terra exígua do pote e ao silêncio rosado da casa; o Modigliani ao alcance dos olhos, as mãos de Alice vê um dia foram as tuas assim pousadas sobre um vestido intemporalmente azul; o vale flutuante para lá das vidraças e os sobreiros que podes ouvir ao vento mas daqui não vês. E cobrindo tudo a abóbada da música. Essa é a moldura estás em casa agora senta-te e escreve. Pode ser que o poema venha de soslaio, rumor meditativo de palavras soltas chamadas pela ondulação da música e do vale ao longe. E pode ser consigas evitar o ponto em que não deves tocar, esse onde outras palavras jazem cheias de fúria e perplexidade. Soledade Santos ... gosto que há no mundo Amar dentro do peito uma donzela; Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura; Falar-lhe, conseguindo alta ventura, Depois da meia-noite na janela: Fazê-la vir abaixo, e com cautela Sentir abrir a porta, que murmura; Entrar pé ante pé, e com ternura Apertá-la nos braços casta e bela: Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos, E a boca, com prazer o mais jucundo, Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos: Vê-la rendida enfim a amor fecundo; Ditoso levantar-lhe os brancos folhos; É este o maior gosto que há no mundo. Manuel Maria Barbosa du Bocage Sonetos, XII Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas No Divas e Contrabaixos. Quero dormir vogando na água em que os sonhos se escrevem com letra clara. José Bento Um Sossegado Silêncio No Divas e Contrabaixos. Quarta-feira, Março 02, 2005
Momento de poesia* Se me ponho a trabalhar e escrevo ou desenho, logo me sinto tão cansado no que devo à eternidade, que começo a empurrar para diante o tempo e empurro-o, empurro-o à bruta como empurra um atrasado, até que cansado me julgo satisfeito; e o efeito da fadiga é muito igual à ilusão da satisfação! Em troca, se vou passear por aí sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo, compreendo tão bem o que não me diz respeito, sinto-me tão chefe do que é fora de mim dou conselhos tão biblicos aos aflitos de uma aflição que não é minha, dou-me tão perfeitamente conta do que se passa fora das minhas muralhas como sou cego ao ler-me ao espelho, que, sinceramente não sei qual seja melhor, se estar sozinho em casa a dar a manivela ao mundo, se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu. *José de Almada Negreiros [1893- 1970] "800 anos de poesia portuguesa" edição círculo de leitores- 1973 (aqui, no excelenteRomã de Vidro) Who Links Here |
27 de Dezembro de 2005