Casa da Poesia

Segunda-feira, Junho 20, 2005

NOZ DE FOGO - VITORINO NEMÉSIO

Tu me deste a Palavra, a noz do fogo
Se o miolo te ficou tenho os dedos queimados.
Dá Deus nozes, Senhor... Sem dentes, desde logo,
Teu Banquete revolta os desdentados.


O Pão esperou na Voz fome e saliva
Ninguém comeu senão da própria suficiência:
Ao menos o Menino tem gengiva,
Saboreia a inocência.


Tende piedade dos Críticos,
Dai-lhes o Best-Seller
Engrossarão o seu coro.
Tudo o que for Sentido - desterrado
E oculto no choro!


Fazei guardar por anjos
A Significação
E em nossa carne eles tenham
Ceva e consolação.
À entrada do Verbo, imo da Morte,
Ponde uma folha a espada:
Guardaremos a Vida e o sangue ao Norte
Do Nada.

Vitorino Nemésio

Publicado por João Carvalho Fernandes às 09:00 PM no Fumaças.


Sábado, Junho 18, 2005

se eu pudesse

pudesse eu descolar os olhos do oceano,
onde permanecem fixos,
verdes como se fossem metáfora.
talvez eles viajassem outras viagens,
talvez lessem poemas,
talvez mirassem carinhosamente
outras paragens.

pudesse eu não ter impregnado em mim
o cheiro marítimo,
salgado como se fosse
lágrima derramada.
talvez sentisse outros sabores,
talvez entregasse a pele a algum lábio rouco.
talvez respirasse um ar
desconhecido e louco.

pudesse eu não ter esta presença vívida,
a tua ausência cotidiana, aguda,
como se fosse fantasma
ou surto delirante.
talvez minha razão fosse outra,
talvez empreendesse uma viagem solo,
talvez alcançasse as cores todas da aquarela.

mas não,
são sempre meus os olhos no horizonte.
olhos que vagam, lassos, verdes, no oceano.



silvia chueire in Eugenia In The Meadow



memória

a memória de ti
me abraça súbita

afoga?

cortante
reabre a ferida
quase cicatrizada

resvalo docemente
no veneno eficaz
sem saída

e eu que pensara
poder driblar o óbvio

como se o corpo se enganasse


silvia chueire in Eugenia In The Meadow


Ocupamos a paisagem
que, desocupada, se ocupa
de nós.
Tempo de ocupação, este.

Somos o estrangeiro
que o silêncio de paredes
brancas e esquecidas
perturbou.

Extasiado ao menor rumor
de um estio
duro e claro
-- todo lâminas.

Perplexo da memória
destes dias
sufocados em tédio
e cal.

Da palavra para a pedra
arrastando-se aquáticos
-- as mais sazonadas
as menos polidas.

Crestada que foi,
na raiz do tempo, toda
a subliminar tentativa
de retorno.

Eduardo Pitta, retirado ao seu sítio na Internet (há lá mais!).


Retirado ao Almocreve das Petas

[Amor]

"Amor, que te dizer,
quando honesto relógio
junto à cama
é laranja de que restam
só dois gomos?
Amor, que te dizer,
Quando o gosto azedo desta pressa
Mancha os lençóis usados
Da pensão? Amor?"

[Eduardo Guerra Carneiro, in Isto anda tudo ligado, 1970]


Mais um retirado do Rua da Judiaria:

O fim do homem é a morte
June 13th, 2005


Olho para o mundo ¿ e ele
assemelha-se a um jardim
com as suas crianças de permeio,
como erva.
Alguns, cuja memória é como a fragrância
do bálsamo,
e outros, cujos rebentos são como feno.
Mas sobre todos a Morte empunha
a sua foice,
e a sepultura guardará esta colheita.

Contemplo os túmulos de outras eras, de
dias antigos,
onde pessoas dormem o eterno sono.
Não há inimizade entre estas gentes
¿ não há inveja;
Não há amor nem há ódio;
E o meu pensamento, vislumbrando-os,
falha em discernir o mestre do escravo.

Onde estão todos os túmulos de todos os homens
que morreram na terra desde os dias de outrora?
Uma sepultura é cavada sobre outra,
e corpos são enterrados sobre corpos;
em buracos na terra eles jazem juntos ¿
os pedaços de cal e as pedras preciosas.

Moisés ben Jacob Ha-Sallah ibn Ezra (conhecido em árabe como Abu Harun Musa) (1070-1138), judeu de Granada. Filósofo, linguista e poeta medieval.

Em memória de Eugénio de Andrade e Álvaro Cunhal.



Eugénio de Andrade. Adeus português.

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.


Francisco José Viegas in Aviz


Roubado ao excelente Rua da Judiaria (espero que o Nuno Guerreiro não se importe):

A beleza das estrelas
June 17th, 2005


Contemplo a beleza das estrelas
que cobrem a face dos céus,
Imagino-as como um jardim em flor ¿
Até que a alva alba sobe, como pomba,
Debaixo das asas de um corvo
Que esvoaça para longe.

Moisés ibn Ezra (1070-1138), filósofo, linguista e poeta medieval. Judeu de Granada.


Segunda-feira, Maio 02, 2005

At Pleasure Bay


In the willows along the river at Pleasure Bay
A catbird singing, never the same phrase twice.
Here under the pines a little off the road
In 1927 the Chief of Police
And Mrs. W. killed themselves together,
Sitting in a roadster. Ancient unshaken pilings
And underwater chunks of still-mortared brick
In shapes like bits of puzzle strew the bottom
Where the landing was for Price's Hotel and Theater.
And here's where boats blew two blasts for the keeper
To shunt the iron swing-bridge. He leaned on the gears
Like a skipper in the hut that housed the works
And the bridge moaned and turned on its middle pier
To let them through. In the middle of the summer
Two or three cars might wait for the iron trusswork
Winching aside, with maybe a child to notice
A name on the stern in black-and-gold on white,
Sandpiper, Patsy Ann, Do Not Disturb,
The Idler. If a boat was running whiskey,
The bridge clanged shut behind it as it passed
And opened up again for the Coast Guard cutter
Slowly as a sundial, and always jammed halfway.
The roadbed whole, but opened like a switch,
The river pulling and coursing between the piers.
Never the same phrase twice, the catbird filling
The humid August evening near the inlet
With borrowed music that he melds and changes.
Dragonflies and sandflies, frogs in the rushes, two bodies
Not moving in the open car among the pines,
A sliver of story. The tenor at Price's Hotel,
In clown costume, unfurls the sorrow gathered
In ruffles at his throat and cuffs, high quavers
That hold like splashes of light on the dark water,
The aria's closing phrases, changed and fading.
And after a gap of quiet, cheers and applause
Audible in the houses across the river,
Some in the audience weeping as if they had melted
Inside the music. Never the same. In Berlin
The daughter of an English lord, in love
With Adolf Hitler, whom she has met. She is taking
Possession of the apartment of a couple,
Elderly well-off Jews. They survive the war
To settle here in the Bay, the old lady
Teaches piano, but the whole world swivels
And gapes at their feet as the girl and a high-up Nazi
Examine the furniture, the glass, the pictures,
The elegant story that was theirs and now
Is part of hers. A few months later the English
Enter the war and she shoots herself in a park,
An addled, upper-class girl, her life that passes
Into the lives of others or into a place.
The taking of lives--the Chief and Mrs. W.
Took theirs to stay together, as local ghosts.
Last flurries of kisses, the revolver's barrel,
Shivers of a story that a child might hear
And half remember, voices in the rushes,
A singing in the willows. From across the river,
Faint quavers of music, the same phrase twice and again,
Ranging and building. Over the high new bridge
The flashing of traffic homeward from the racetrack,
With one boat chugging under the arches, outward
Unnoticed through Pleasure Bay to the open sea.
Here's where the people stood to watch the theater
Burn on the water. All that night the fireboats
Kept playing their spouts of water into the blaze.
In the morning, smoking pilasters and beams.
Black smell of char for weeks, the ruin already
Soaking back into the river. After you die
You hover near the ceiling above your body
And watch the mourners awhile. A few days more
You float above the heads of the ones you knew
And watch them through a twilight. As it grows darker
You wander off and find your way to the river
And wade across. On the other side, night air,
Willows, the smell of the river, and a mass
Of sleeping bodies all along the bank,
A kind of singing from among the rushes
Calling you further forward in the dark.
You lie down and embrace one body, the limbs
Heavy with sleep reach eagerly up around you
And you make love until your soul brims up
And burns free out of you and shifts and spills
Down over into that other body, and you
Forget the life you had and begin again
On the same crossing--maybe as a child who passes
Through the same place. But never the same way twice.
Here in the daylight, the catbird in the willows,
The new café, with a terrace and a landing,
Frogs in the cattails where the swing-bridge was--
Here's where you might have slipped across the water
When you were only a presence, at Pleasure Bay.

Robert Pinsky, aqui.


Segunda-feira, Abril 18, 2005

na noite

na noite
entre enganos
dizemos alguma coisa que parece prece
entre as horas longuíssimas
da madrugada

mulheres
e homens dão passos em falso
sabendo no íntimo que é assim.

guardam o afeto nalgum canto obscuro
e já não distinguem
o que há.
se mãos vazias
amor desmedido
ou apenas procura vã
e lágrimas inevitáveis.


silvia chueire, in eugeniainthemeadow


Definitivo

Água e terra tomam-se
na fúria do princípio,
morre-se escondidamente algures
em silêncios que ninguém deplora
e o tempo é de risadas
ígneas sem pudor.

Aqui nada ¿ silêncio da manhã que nasce
como as outras:
doçura envenenada dos dias
e tudo tão quieto excepto
o peito
e o ensaio de um poema.

Não serve para nada o poema:
não resgata não limpa não sara.
Antes um vidro quebrado e o corte
limpo da aresta suja
no centro do peito
ou do mundo.

Soledade Santos, in Nocturno com Gatos.



As pedras

As pedras falam? pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam.

Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nós?
O que de nós pensarão?

As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.

Riem nos muros ao sol,
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como aves
e nem mais tarde regressam.

Brilham quando a chuva cai.
Vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em fonte
que saiba matar a sede.

Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou:
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.

As pedras falam? pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
um coisa para dizer.

(Maria Alberta Menéres)

(retirado ao Abrigo de Pastora)


Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,

Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés ¿
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...

(Alberto Caeiro)

(retirado ao Abrigo de Pastora)


Eating Poetry

Ink runs from the corners of my mouth.
There is no happiness like mine.
I have been eating poetry.

The librarian does not believe what she sees.
Her eyes are sad
and she walks with her hands in her dress.

The poems are gone.
The light is dim.
The dogs are on the basement stairs and coming up.

Their eyeballs roll,
their blond legs burn like brush.
The poor librarian begins to stamp her feet and weep.

She does not understand.
When I get on my knees and lick her hand,
she screams.

I am a new man.
I snarl at her and bark.
I romp with joy in the bookish dark.

(Mark Strand)

(retirado ao Abrigo de Pastora)


A fome de Camões

Este vulto, portanto, que caminha
Altas horas, ao frio das nortadas,
É Camões que se definha
Nas ruas de Lisboa abandonadas.
É Camões que a sorte vil, mesquinha,
Faz em noites de fome torturadas,
Ele o velho cantor de heróis guerreiros!...
Vagar errante como os vis rafeiros.

Morreu-lhe o escravo, o seu fiel amigo,
O seu amparo e seu bordão no mundo,
Morreu-lhe o humilde companheiro antigo,
No seu vácuo deixando um vácuo fundo.
Hoje, pois, triste, velho, sem abrigo,
Faminto, abandonado e vagabundo,
Tenta esmolar também pelas esquinas.
Ó lágrimas!... Ó glória! Ó ruínas!...

(Gomes Leal)

(retirado ao Abrigo de Pastora)


Odeio este tempo detergente

Odeio este tempo detergente
um tempo português que até utilizou
os primeiros acordes da quinta sinfonia de beethoven
como indicativo da voz do ocidente
chamada actualmente a emissão em línguas estrangeiras
um tempo que parou e só mudou
o nome que puseram num mundo que muda
a coisas que afinal permaneceram
um tempo português que alguma vez até em camões vê
o antecessor e criador de coisa como a nato
com a profética visão de quem consegue conceber tal obra
bem pouco literária por sinal e só possível graças à visão
de quem com um só olho vê as coisas quatrocentos anos antes
Odeio este meu tempo detergente
de uma poesia que discreta até se erótica antigamente
hoje se prostitui numa publicidade
devida a algum poeta público que a certo detergente
deu de repente esse teu nome musical de musa
a ti precisamente a ti nesse teu rosto sorridente
onde o poeta público publicitário porventura viu
sobressair teu riso nesse território de alegria
e a brancura mais alva nesses dentes alvejar
E eu que faço eu aqui em todo este tempo detergente quando
sinto subitamente cem saudades tuas
que posso que não seja odiar mais um meio que jamais
tentaria impedir evitaria um tempo que consente até contente
que faças dentro em pouco um ano mais
um meio onde nem mesmo eu mulher afinal sei
que terei de fazer para deter ao menos um momento essa tua idade
a tua juventude se possível anos antes de haver-te conhecido
por acaso e já tarde na cidade onde nasceste
cidade que unamuno diz viver morrer apenas por amor
amor morto ou mortal mas amor imortal
cidade solidão as ruas muita gente os sons o sol
difusos e confusos corredores de uma faculdade
folhas que se renovam rostos que outros rostos
tão firmes tão presentes permanentes um só ano antes
friamente destroem sem deixar sequer
ao menos uma marca nessa fria impassível pedra
o tempo os sóis dos séculos cingindo os cintos da cidade
dessa cidade onde o povo morre novo à volta
do mesmo monumento destinado a exaltá-lo
cidade onde afinal a paisagem é pretexto para o homem
cidade portuguesa ó portugal ó parte da hispânia maior
maneira triste de se ser ibéria onde
da terra emerge o homem que depois o rosto nela imerge
ó portugal dos pescadores de espinho
espinho do suicida laranjeira espinho praia
antiga amiga e conhecida de unamuno
a praia dos seus últimos passeios portugueses
angústia atlântica e odor ó dor olor a campo
praia que so' existe quando alguém a veste
coisa que foi somente quando tu mulher a viste
Aqui em portugal aqui na vasta praia portuguesa
aqui nasci e ao nascer morri
como morri a morte que por sorte sempre tive
pesadamente do mais alto do meu peso dos meus anos
em cada um dos sítios onde um dia estive
Aqui tive dezasseis anos aos dezasseis anos
aqui só vejo pés há muitos anos já
Aqui o meu chapéu de chuva mais ao sul aceita em chapa o sol
chapéu que fecho quando fecha o sol definidor do dia
Tive um passado agora inacessível um passado
tão alto como a torre do relógio da aldeia
que pontual pontua a passagem do tempo
um tempo não ainda detergente um tempo
afinal só visível no sensível alastrar da sombra
ao longo desse pátio só possível ao adolescente
que mais tarde e mais só e de maneira mais sensível
mais só se sentirá no meio da imensa gente
que se sentia ali entre a andorinha e a nespereira
Não o sabia então mas dominava um mundo
esse mundo que espero que me espere um dia ao fundo
lá quando findo o dia sob o chão me afundo e ao final
em terra e em verdade é que me fundo
Mas eu aqui completamente envolto neste tempo detergente
é da segunda-feira e da semana que preciso pois
posso lutar melhor por uma luz melhor
do que esta luz do mar à hora do entardecer
É da cidade é da publicidade é da perversidade
que preciso e não tenho aqui na praia
Não tenho nem o mar nem tão rudimentar
a técnica de olhar alguém as minhas mãos
para me devassar a vã vida privada
É de inverno é domingo estou sozinho aqui na praia
regresso a casa à noite apanho eu próprio a roupa no quintal
e tenho a sensação de quem alguma coisa
faz pela primeira e sente bem ou mal
que tarde toma agora o seu banho lustral

(Ruy Belo)

(retirado ao Abrigo de Pastora)


sacrificaram tudo a deus. e
o que não sacrificaram a deus
sacrificaram pelos vindouros

os quais

sacrificaram tudo a deus. e
o que não sacrificaram a deus
sacrificaram pelos vindouros

os quais

sacrificaram tudo a deus. e
o que não sacrificaram a deus
sacrificaram pelos vindouros

os quais

sacrificaram tudo a deus. e
o que não sacrificaram a deus
sacrificaram pelos vindouros

e assim sucessivamente.

para os vindouros ainda não.
para deus já talvez tenha valido a pena.


Alberto Pimenta
Obra Quase Incompleta
Ed. Fenda, 1990

(retirado ao Divas & Contrabaixos)


Sem título

não deixes na solidão a linha recta
quebra-lhe uma companhia
basta um ângulo
como ao deserto a duna.

Abril 05, Helena F. Monteiro, in Linha de Cabotagem


Sábado, Março 26, 2005

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa
de Viagem através de uma Nebulosa, 1960
in O Poeta na Rua, Antologia Portátil,
Ed. quasi
(oferta Divas & Contrabaixos)

Terça-feira, Março 22, 2005

Roubado ao Fumaças.

ESCADA EM CARACOL

É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Corre-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.

David Mourão-Ferreira


Roubado ao Fumaças.

O Captain! My Captain!

O CAPTAIN! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather'd every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up¿for you the flag is flung¿for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon'd wreaths¿for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You've fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor'd safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
Exult O shores, and ring O bells!
But I with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

Walt Whitman


Roubado ao ABRUPTO.

Semântica Electrónica

Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenança ---
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!

(Vitorino Nemésio)


Roubado ao ABRUPTO.

Of Politics, & Art

--for Allen

Here, on the farthest point of the peninsula
The winter storm
Off the Atlantic shook the schoolhouse.
Mrs. Whitimore, dying
Of tuberculosis, said it would be after dark
Before the snowplow and bus would reach us.

She read to us from Melville.

How in an almost calamitous moment
Of sea hunting
Some men in an open boat suddenly found themselves
At the still and protected center
Of a great herd of whales
Where all the females floated on their sides
While their young nursed there. The cold frightened whalers
Just stared into what they allowed
Was the ecstatic lapidary pond of a nursing cow's
One visible eyeball.
And they were at peace with themselves.

Today I listened to a woman say
That Melville might
Be taught in the next decade. Another woman asked, "And why not?"
The first responded, "Because there are
No women in his one novel."

And Mrs. Whitimore was now reading from the Psalms.
Coughing into her handkerchief. Snow above the windows.
There was a blue light on her face, breasts and arms.
Sometimes a whole civilization can be dying
Peacefully in one young woman, in a small heated room
With thirty children
Rapt, confident and listening to the pure
God rendering voice of a storm.


(Norman Dubie)


Roubado ao Fumaças.

Sabes quem sou? Eu não sei.

Sabes quem sou? Eu não sei.
Outrora, onde o nada foi,
Fui o vassalo e o rei.
É dupla a dor que me dói.
Duas dores eu passei.

Fui tudo que pode haver.
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr.

Fernando Pessoa


Roubado ao ABRUPTO.

Chansons Innocentes: I


in Just-
spring when the world is mud-
luscious the little
lame balloonman

whistles far and wee

and eddieandbill come
running from marbles and
piracies and it's
spring

when the world is puddle-wonderful

the queer
old balloonman whistles
far and wee
and bettyandisbel come dancing

from hop-scotch and jump-rope and

it's
spring
and
the
goat-footed

balloonMan whistles
far
and
wee

(E. E. Cummings)


Dia Mundial da Poesia, seja lá o que isso for.


Venham lá os vossos poemas favoritos com uma estória a acompanhar. Este espaço sente a vossa falta. Assim vou ter de ir por aí roubando. Que coisa feia.

Quinta-feira, Março 03, 2005

Girassol

Girassol
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.

Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.

Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.

Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas.

Amanheceu!

Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente
Girassol!

Corsino Fortes
in "Claridade", n°9, 1960

No Kitanda.


A NAVE DE ALCOBAÇA


Vazia, vertical, de pedra branca e fria,
longa de luz e linhas, do silêncio
a arcada sucessiva, madrugada
mortal da eternidade, vácuo puro
do espaço preenchido, pontiaguda
como se transparência cristalina
dos céus harmónicos, espessa, côncava
de rectas concreção, ar retirado
ao tremor último da carne viva,
pedra não-pedra que em pilar's se amarra
em feixes de brancura, geometria
do espírito provável, proporção
da essência tripartida, ideograma
da muda imensidão que se contrai
na perspectiva humana. Ambulatório
da expectação tranquila.

Nave e cetro,
e sepulcral resíduo, tempestade
suspensa e transferida. Rosa e tempo
Escada horizontal. Cilindro curvo
Exemplo e manifesto. Paz e forma
do abstracto e do concreto.Hierarquia
de uma outra vida sobre a terra. Gesto
de pedra branca e fria, sem limites
por dentro dos limites. Esperança
vazia e vertical Humanidade.

Araraquara,Brasil, 27 Novembro 62

Jorge de Sena - in Metamorfoses-Poesia II- Moraes editores, Lisboa,1978

No Ao Longe os Barcos de Flores.


À entrada do poema

Escuta e fixa-te à luz familiar:
a planta que junto da mesa se alçou
arbusto nestes anos de fixidez
à terra exígua do pote
e ao silêncio rosado da casa;
o Modigliani ao alcance dos olhos,
as mãos de Alice vê um dia foram as tuas
assim pousadas sobre um vestido
intemporalmente azul;
o vale flutuante para lá das vidraças
e os sobreiros que podes ouvir
ao vento mas daqui não vês.
E cobrindo tudo
a abóbada da música.

Essa é a moldura estás em casa
agora senta-te e escreve.
Pode ser que o poema venha de soslaio,
rumor meditativo de palavras soltas
chamadas pela ondulação da música
e do vale ao longe. E pode ser
consigas evitar o ponto
em que não deves tocar, esse
onde outras palavras jazem
cheias de fúria e perplexidade.


Soledade Santos


... gosto que há no mundo

Amar dentro do peito uma donzela;
Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela:

Fazê-la vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertá-la nos braços casta e bela:

Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:

Vê-la rendida enfim a amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que há no mundo.



Manuel Maria Barbosa du Bocage
Sonetos, XII
Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas

No Divas e Contrabaixos.


Quero dormir
vogando na água
em que os sonhos se escrevem
com letra clara.

José Bento
Um Sossegado Silêncio

No Divas e Contrabaixos.

Quarta-feira, Março 02, 2005

Momento de poesia*


Se me ponho a trabalhar
e escrevo ou desenho,
logo me sinto tão cansado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar para diante o tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que cansado me julgo satisfeito;
e o efeito da fadiga
é muito igual à ilusão da satisfação!
Em troca, se vou passear por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que é fora de mim
dou conselhos tão biblicos aos aflitos
de uma aflição que não é minha,
dou-me tão perfeitamente conta do que
se passa fora das minhas muralhas
como sou cego ao ler-me ao espelho,
que, sinceramente não sei qual
seja melhor,
se estar sozinho em casa a dar a manivela ao mundo,
se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu.


*José de Almada Negreiros [1893- 1970]
"800 anos de poesia portuguesa"
edição círculo de leitores- 1973

(aqui, no excelenteRomã de Vidro)

Domingo, Fevereiro 27, 2005

o tempo dos barcos

enquanto bordas o tempo dos barcos
constróis a casa com a luz pequena.
nos sonos longos, és tu que anoiteces.
colhes a curva de um rosto,
com clareza
teces a alma vã da firmeza
nos colos finos, na lâmina dos rios.
ó doce pescador, madrugada que fosse
a foice dos meus poemas,
dá-me os pássaros alinhados
as minhas penas.
ó cegas torres de marfim,
na excentricidade vagabunda da fadiga
começa o meu fim.

26.fev.2005
mariagomes


obrigado Meu Deus por mais este espantoso
dia:pelos saltitantes e virentes espíritos das árvores
e um azul autêntico sonho celeste;e por tudo
o que é natural o que é infinito o que é sim

(eu que morri estou vivo de novo,
e este é o dia de anos do sol;este é de anos
o dia da vida e do amor e asas:e do alegre
grande evento ilimitavelmente terra)

como poderia saboreando tocando ouvindo lendo
respirando qualquer----erguido do não
de todo o nada----ser simplesmente humano
duvidar inimaginável de Ti?

(agora os ouvidos dos meus ouvidos despertam e
agora os olhos dos meus olhos estão abertos)


E.E. Cummings. retirado ao Divas e Contrabaixos.


«Naquele piquenique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!»

Cesário Verde. retirado ao Aviz.

Sábado, Fevereiro 26, 2005

Aos amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.

- Temos um talento doloroso e obscuro.
construi­mos um lugar de silêncio.
De paixão.

(Herberto Helder), retirado ao Abrupto.

Terça-feira, Fevereiro 22, 2005

Quando Eu Partir

Quando eu partir, quando eu partir de novo
A alma e o corpo unidos,
Num último e derradeiro esforço de criação;
Quando eu partir...
Como se um outro ser nascesse
De uma crisália prestes a morrer sobre um muro estéril,
E sem que o milagre se abrisse
As janelas da vida. . .
Então pertencer-me-ei.
Na minha solidão, as minhas lágrimas
Hão de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência,
E eu serei o senhor da minha própria liberdade.
Nada ficará no lugar que eu ocupei.
O último adeus virá daquelas mãos abertas
Que hão de abençoar um mundo renegado
No silêncio de uma noite em que um navio
Me levará para sempre.
Mas ali
Hei de habitar no coração de certos que me amaram;
Ali hei de ser eu como eles próprios me sonharam;
Irremediavelmente...
Para sempre.

Ruy Cinatti
*
Retirado ao Kitanda.


Da Oração

Doce quietação de quem vos ama,
Em serviços, Senhor, que tanto quanto
Amado sois, tão longe o fim de tanto,
Subindo mais, e mais, mais se derrama:

Ardendo por arder em viva chama
De amor do vosso amor, a voz levanto;
Sinto, suspiro, choro, colho, e planto
Ao som doutra suave que me chama.

Onde se vai, Senhor, quem vos ofende?
Donde levais, Deus meu, a quem vos segue?
Onde fugir se pode uma de duas?

Morto por quem o mata que pretende,
Ou que extremos de amor há que nos negue
Quem culpas nossas chama ofensas suas?

(Frei Agostinho da Cruz)

*
Retirado ao Abrupto.

Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005

COM OS OLHOS SECOS

Com os olhos secos
- estrelas de brilho inevitável
atravós do corpo atravós do espírito
sobre os corpos inanimes dos mortos
sobre a solidão das vontades inertes
nós voltamos

Nós estamos regressando África
e todo o mundo estará presente
no super-batuque festivo
sob as sombras do Maiombe
no carnaval grandioso
pelo Bailundo pela Lunda

Com os olhos secos
contra este medo da nossa África
que herdámos dos massacres e mentiras

Nós voltamos África
estrelas de brilho irresistível
com a palavra escrita nos olhos secos
- LIBERDADE.

Agostinho Neto, aqui.


Notícias do Bloqueio



Aproveito a tua neutralidade,

o teu rosto oval, a tua beleza clara,

para enviar notícias do bloqueio

aos que no continente esperam ansiosos.



Tu lhes dirás do coração o que sofremos

nos dias que embranquecem os cabelos...

Tu lhes dirás a comoção e as palavras

que prendemos - contrabando - aos teus cabelos.



Tu lhes dirás o nosso ódio construído,

sustentando a defesa à nossa volta

- único acolchoado para a note

florescida de fome e de tristezas.



Tua neutralidade passará

por sobre a barreira alfandegária

e a tua mala levará fotografias,

um mapa, duas cartas, uma lágrima...



Dirás como trabalhamos em silêncio,

como comemos silêncio, bebemos

silêncio, nadamos e morremos

feridos de silêncio duro e violento.



Vai pois e noticia com um archote

aos que encontrares de fora das muralhas

o mundo em que nos vemos, poesia

massacrada e medos à ilharga



Vai pois e conta nos jornais diários

ou escreve com ácido nas paredes

o que viste, o que sabes, o que eu disse

entre dois bombardeamentos já esperados.



Mas diz-lhes que se mantém indevassável

o segredo das torres que nos erguem,

e suspensa delas uma flor em lume

grita o seu nome incandescente e puro.



Diz-lhes que se resiste na cidade

desfigurada por feridas de granadas

e enquanto a água e os víveres escasseiam

aumenta a raiva

e a esperança reproduz-se


EGITO GONÇALVES, EM A VIAGEM COM O TEU ROSTO
LÍRICAS PORTUGUESAS, PORTUGÁLIA EDITORA, LISBOA, S.D., 3ª SÉRIE, P.317
*
Oferta que muito agradecemos de Helena F. Monteiro.

Domingo, Fevereiro 13, 2005

SÚPLICA

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada


Miguel Torga
(retirado ao Alma de Poeta)


Perecimentos

Não sei se o rio
que banhava minha cidade
ainda corre
para o mar.

Nem se as paredes
da casa onde vivi ainda
estão coloridas.

Não sei se o asfalto já
ocultou as pedras
onde viajou o primeiro fusca
de meu pai.

Nem se cresceu mato
ou edifícios brilhantes
no lote vago onde brincávamos.

Faz tempo esqueci
de quais tios sobrinhos e primos
nasceram ou morreram.

E minha cidade não é
mais sequer um retrato
na parede.

Longe cada ano mais
me distancia
dos meus primeiros dias

da mamadeira no chão da sala
dos canarinhos amarelos
das goiabas e do limoeiro.

Longe cada dia mais
me distancio do que
fui ou poderia

e vou me esquecendo
pelos corredores cada vez mais vazios
deste meu minúsculo mundo.


Adair Carvalhais Júnior
Do Nocturno com Gatos, publicado pela Soledade.


pode não ser sempre assim; e eu digo
que se os teus lábios, que amei, tocarem
os de outro, e os teus ternos fortes dedos aprisionarem
o seu coração, como o meu não há muito tempo;
se no rosto de outro o teu doce cabelo repousar
naquele silêncioque conheço, ou naquelas
grandiosas contorcidas palavras que, dizendo demasiado,
permanecem desamparadamente diante do espírito ausente;


se assim for, eu digo, se assim for--
tu do meu coração, manda-me um recado;
para que possa ir até ele, e tomar as suas mãos,
dizendo, Aceita toda a felicidade de mim.
E então voltarei o rosto, e ouvirei um pássaro
cantar terrivelmente longe nas terras perdidas.

E.E. Cummings in livrodepoemas, Assírio & Alvim (trad. de Cecília Rego Pinheiro)
oferta de DivaseContrabaixos


Da Madrugada

Na madrugada gélida
nem os coelhos saíram das tocas
nem o céu se azulou
o mar é um sopro infantil
e dos pássaros nada se ouve.

Apenas eu dialogo com a madrugada
na escuridão que só o silêncio presencia
não são habituais os gestos
- praticamente inexistentes ¿
não vá qualquer sopro desconexo
perturbar este infinito
e todas as vozes que em catarse
carrego dentro de mim.

Helena F. Monteiro
Lisboa, 29 de Janeiro de 2005


gozo

como se o corpo
líquido
galgasse a onda,

fundido a ela
elevado e puro,
gritasse,
antes de despencar
espuma.

silvia chueire

Sábado, Fevereiro 12, 2005

Sabedoria

Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando
Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.

Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar...
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.

(José Régio)

Retirado ao Abrigo de Pastora.


BIODIVERSIDADE

Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.

Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.

Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,

câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?

Paulo Henriques de Britto, Macau. Companhia das Letras.

Tirado ao Gavea. Esse lugar de grandes prazeres. Este poema do vencedor do Prémio Portugal Telecom/Brasil. Desse mesmo livro vencedor.


De Adélia Freitas. Retirado ao Gavea de Francisco José Viegas:

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
¿ dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.



Adélia Luzia Prado Freitas nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, no dia 13 de Dezembro de 1935. A sua poesia está reunida em Poesia Reunida, publicada pela Siciliano.


Terça-feira, Fevereiro 08, 2005

Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal

Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência.
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.


Sophia de Mello Breyner Andresen

(oferta da especialLouise. que muito agradeço.)

Domingo, Fevereiro 06, 2005

Último Brinde


Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz...
Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada vêem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.
*
Последний тост


Я пью за разоренный дом,
За злую жизнь мою,
За одиночество вдвоем,
И за тебя я пью,-
За ложь меня предавших губ,
За мертвый холод глаз,
За то, что мир жесток и груб,
За то, что бог не спас.

1934, Anna Akhmatova, pseudónimo de Anna Andreievna Gorenki nasceu nos arredores de Odessa em 1889 e faleceu nos arredores de Moscovo em 1966.
(retirado ao Romã de Vidro)


A la puta que llevó mis poemas

Algunos dicen que debemos eliminar del poema
los remordimientos personales,
permanecer abstractos, hay cierta razón en esto, pero
¡POR DIOS!
¡Doce poemas perdidos y no tengo copias!
¡Y también te llevaste mis cuadros, los mejores!
¡Es intolerable!

¿Tratas de joderme como a los demás?
¿Por qué no te llevaste mejor mi dinero?
Usualmente lo sacan de los dormitorios y de los pantalones borrachos
[y enfermos en el rincón.
La próxima vez llévate mi brazo izquierdo o un billete de 50,
pero no mis poemas.

No soy Shakespeare pero puede ser que algún día ya no escriba más,
abstractos o de los otros.
Siempre habrá dinero y putas y borrachos
hasta que caiga la última bomba,
pero como dijo Dios,
cruzándose de piernas:
veo que he creado muchos poetas pero no mucha poesía.

Charles Bukowski (EEUU, 1920-1994)
(retirado ao Romã de Vidro)

Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005

Não esquecer.António Gedeão (Prof. Rómulo de Carvalho)

Entrevista na Gazeta de Física da Universidade de Coimbra, a não perder.
Alguns poemas no Artistas Matemáticos/Matemáticos Artistas.
Lição sobre a água, numa página dedicada a poesia sobre o líquido da vida.
Alguns poemas na Página de Ciência Viva.


Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit dÈjý
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le coeur du bonheur
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
O¿ il ne pleut pas
Je creuserais la terre
Jusqu'aprËs ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumiËre
Je ferai un domaine
O¿ l'amour sera roi
O¿ l'amour sera loi
O¿ tu seras ma reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensÈs
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants lý
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te raconterai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

On a vu souvent
Rejaillir le feu
D'un ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraÓt-il
Des terres br¿lÈes
Donnant plus de blÈ
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'Èpousent-ils pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai lý
A te regarder
Danser et sourire
Et ý t'Ècouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas.

Jacques Brel, também aqui.


Impressão Digital

Os meus olhos são uns olhos,
e é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos,
onde outros, com outros olhos,
nao vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos, diz flores!
De tudo o mesmo se diz!
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Pelas ruas e estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente!!

Inutil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D.Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos!
Vê gigantes? São gigantes!

António Gedeão

Encontrado aqui.

Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005

Homem

Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.

António Gedeão, Poemas Escolhidos, Edições Sá da Costa, Lisboa, 2002.

(poema enviado pela Rita. Obrigado.)

Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005

De um coração para outro


Tão curta a distância - de um coração para outro.
Se me sinto a mim, aos meus desejos,
porque não a ti e os teus?

Milhões de olhos buscam e não conseguem encontrar o outro.
Cada um evita o outro, como aranhas famintas.
Quem não carrega no seu seio amor, gratidão
a outros?

Deixa-me confessar abertamente o meu desejo por ti!
E como uma ponte abarcando mil terras
que te separam de mim,
deixa-me, eu próprio, deitar-me para te alcançar

Abraham Joshua Heschel, (1907 - 1972), rabino, filósofo e poeta.

Retirado ao Rua da Judiaria


Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen
(enviado pela Susana)


A concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

(Vitorino Nemésio), no Abrupto

Terça-feira, Fevereiro 01, 2005

Sonnets from the Portuguese

XLIII

How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.

I love thee to the level of everyday's
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee purely, as they turn from Praise.

I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood's faith.
I love thee with a love I seemed to lose

With my lost saints, - I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life! - and, if God choose,
I shall but love thee better after death.

(Elizabeth Barrett Browning), tirado ao Abrigo da Pastora


Sábado, Janeiro 29, 2005

POEMA XVIII

Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

Eugénio de Andrade, retirado ao Fumaças


A Cidade do Massacre
Haim Nahman Bialik


Levanta-te agora e vai à cidade do massacre;
Passeia pelos seus pátios;
Com a tua mão toca,
e com os olhos da tua cara
olha nas árvores, nas pedras, nos muros, na cale
os pingos de sangue e os miolos secos dos mortos.
Vai depois às ruínas, onde
se estendem as paredes fendidas,
onde cresce o vazio e maior cresce a brecha;
Passa sobre a lareira despedaçada,
alcança as paredes quebradas
cujos tijolos queimados e estéreis,
cujas pedras carbonizadas
revelam as bocas abertas dessas feridas,
que nenhum remendo alguma vez remendará,
ou cura curará.
Ali penas afundarão os teus pés, e
tropeçarás em destroços duplamente destroçados,
pergaminhos empilhados em manuscritos.
Fragmentos outra vez fragmentados.

Não pares neste caos; segue o teu caminho.
O perfume dos rebentos de acácias virá trazido pelo vento
e metade das suas flores serão penas,
que exalam o odor do sangue.
E, mortificando-te, estranhos incensos trarão.
Banindo o teu asco, toda a beleza da Primavera,
os mil raios dourados do sol, descerá sobre a tua maldição.
Porque Deus chamou o Massacre e a Primavera juntos;
O assassino matou, as flores desabrocharam,
e depois veio o tempo ameno e o sol.

Vai depois a um quintal, observa o monte.
Sobre o monte estão dois decepados:
Um judeu e o seu cão de caça.
Golpeados com o mesmo machado, os dois,
arremessados para a mesma pilha
onde porcos buscam estrume.
Amanhã a chuva lavará os seus sangues misturados
para os riachos, e perder-se-ão
em pilhas de lixo, em poças estagnadas, em lama.
O seu grito não será ouvido.
E tudo será como sempre foi.

Sobe até ao sótão, caminha com pés e mãos;
Observa a sombra da morte erguida entre as sombras.
Ali no canto funesto, ali no esconderijo sombrio,
numerosos olhos posarão em ti atravessando o silêncio triste.
Estas são as almas do espírito dos mártires,
Juntas, finalmente, sob estas vigas e dentro destes buracos ignóbeis.
O machado encontrou-as aqui, e para cá vieram
selar com o último olhar, com o último sopro,
a agonia das suas vidas, o terror das suas mortes.
Fantasmas que tombam e tropeçam, vieram aqui encolher-se.
O seu silêncio chora e são os seus olhos que clamam:
Porque razão, Senhor, e porquê?
É um silêncio que só Deus pode suportar.

Levanta então os teus olhos para o tecto;
não há lá nada, a não ser um seguro silêncio
suspenso nas traves.
Interroga a aranha no seu esconderijo.
Os seus olhos viram todas estas coisas;
E com a sua teia ela pode desenrolar um relato
horrendo aos ouvidos dos homens:
uma história de ventres rasgados, de narinas pregadas,
de crânios e ossos esmagados e derramados.
De homens assassinados pendurados nas traves.
E de um recém-nascido arremessado ao lado da mãe
trespassada por uma lança;
De como um punhal cortou ao meio a palavra de uma criança,
ouviu-se ma, mas mamã nunca chegou a formar-se.
Ó, ainda agora os seus olhos me pedem explicações
do relato que a aranha reconta,
histórias que perfuram o cérebro, histórias que te cortam
o corpo, o espírito, a alma, da vida, para sempre.
Então vais implorar ao teu espírito ¿
Pára, chega!
Asfixia a raiva que te sobe a garganta,
enterra estas coisas malditas,
bem fundo no teu peito, antes que o coração te estoure.
Depois deixarás estes lugares e partirás ¿ olha! ¿
A terra é como era, o sol brilha ainda:
É um dia como qualquer outro.

Desce depois às adegas da cidade,
aqui violaram as virginais filhas das gentes,
onde sete bárbaros se atiraram às mulheres,
a mãe à vista da filha,
a filha à vista da mãe,
antes da matança, durante a matança, depois da matança.
Toca com teus dedos o forro manchado,
sente a almofada ensanguentada,
foi aqui que as bestas selvagens
com machados sangrentos nas patas
obrigaram as tuas filhas a sucumbir...
Esmagadas na vergonha, viram tudo;
Não arrancaram os olhos;
Não esmagaram a cabeça contra paredes.
Talvez, talvez, as testemunhas buscaram nos corações orações:
Um milagre, Senhor, poupa a minha pele mais um dia!

Vem, agora, levar-te-ei aos seus esconderijos,
Às latrinas e chiqueiros onde se ocultaram
os herdeiros dos Hasmoneanos, com joelhos trémulos,
escondidos e agachados ¿ os filhos dos Macabeus!
A semente de santos, a prole dos leões!
Que, amontoados em multidões nos santuários da humilhação,
tanto santificaram o Meu nome!
Fugiram a fuga dos ratos,
o correr das carochas foi a sua fuga;
morreram como cães e morreram!
E, na manhã seguinte, depois da noite terrível
o filho que não foi morto encontrou no chão
o cadáver desprezado do seu pai.
Porque razão, Senhor, e porquê?

Exausta e gasta, uma escura Shekinah
Corre para cada canto sem encontrar descanso;
Deseja chorar, mas o choro não vêm;
Quer rugir; emudeceu.
Com a cabeça debaixo da asa, a asa estendida
sobre as sombras dos mártires mortos,
as suas lágrimas vertidas em silêncio e penumbra.

Tu, também, filho do homem, fecha agora o portão;
Fecha-te na escuridão, é tua agora esta morgue;
Tardando ali serás uno com a dor e a angustia
e enche de mágoa o teu coração por todos os seus dias.
Então, no dia da tua própria desolação
parecerá um refúgio,
pousado em ti como maldição, uma emboscada de demónio,
o assombrar de um pesadelo,
Ó, arrastando-o no teu coração, pela extensão do mundo
quererás proclamá-lo, falar dele
mas os teu lábios não encontrarão palavras.

Vai além dos subúrbios, chega ao cemitério.
Não deixes que homem algum te veja; chega só,
Um lugar de campas santas e pedra-mártir.
Chega-te perto do solo revolvido e fresco.
O silêncio tomará conta de ti,
O teu coração enfraquecerá com pena e vergonha,
mas não deixarei que uma lágrima caia dos teus olhos.
Endurecerei o teu coração,
não te permitirei um suspiro.
Olha, vê os bezerros mortos, massacrados;
Há algum preço para a sua morte? Como deve ser pago esse preço?
Perdoai, humilhados da terra, o vosso é um Senhor pobre!
Pobre foi Ele em vida, e pobre continua ainda.
Quando à minha porta vieres buscar recompensa,
abri-la-ei de par em par: Vejam, perdi a grandeza dos Meus altos domínios.
Sofro por vós, meus filhos. O meu coração entristece por vós.
Os vossos mortos morreram em vão; e nem eu nem tu
sabemos porque morreste ou porque razão, por quem, ou porque leis;
As tuas mortes são sem razão; as tuas vidas são sem causa.

Volta agora o teu olhar dos mortos, vou guiar-te
do cemitério aos teus irmãos vivos,
e virás, com os da tua própria geração,
à sinagoga, e no dia do jejum,
para ouvir o seu grito de agonia,
as suas eternas lágrimas.
A pele arrefecerá, os cabelos da tua cabeça ficarão de pé,
e serás movido, trémulo, pelo medo.
Assim geme um povo perdido.
Olha nos seus corações ¿ observa o triste vazio
onde nem a vingança consegue crescer,
mas ainda assim, nos seus lábios não se levantam
altas maldições, ou juramentos de blasfémia.
Fala com eles, implora-lhes raiva!
Deixa que contra mim levante a mão ultrajada,
Deixa que exijam!
Exijam retribuição pelos humilhados
de todos os séculos e todos os tempos!
Que se atirem punhos como pedras
Contra os céus e o Trono celeste!

E tu, também, não lhes mostres misericórdia, não lhes toques nas feridas;
Não deites nem mais uma gota no seu cálice.
Onde tocasses encontrarias uma ferida,
as suas carnes são todas chaga.
Porque com resignação enfrentaram a dor
e com a humilhação fizeram pazes,
de que lhes servirá a tua consolação?
São coitados demais para evocar em ti desprezo.
São arruinados demais para evocar em ti compaixão.
Deixa-os ir, então, homens nascidos na aflição,
enlutados e esmagados sob o peso que os oprime.
Parte então das suas casas e lares
podridão nos ossos, corrupto coração.
E vai até à estrada,
encontrarás ai estes homens destroçados pela mágoa,
suspirando e gemendo, às portas dos ricos
proclamando as suas feridas, como mercadoria de pedinte,
A um a cabeça espancada, outro os membros enfermos,
um mostra um braço ferido, outro os ossos partidos.
E todos têm olhos que são os olhos de escravos,
Escravos açoitados em frente dos donos;
cada um suplica, cada um deseja:
Recompensa-me, Senhor, pelo meu crânio quebrado.
Recompensa-me, Senhor, pelo meu pai martirizado!

E assim compaixão imploram.
Porque és agora o que sempre foste
Como estendeste a mão
assim a estendes,
e como foste desgraçado,
assim desgraçado és.

Que fazes aqui, filho do homem?
Levanta-te, foge para o deserto!
Leva para lá contigo o cálice de desgosto!
Levai a sua alma, rasga-a em mil retalhos!
Com raiva impotente, com coração deformado!
Verte a tua lágrima sobre rochas áridas
e manda o seu grito amargo à tempestade!


Haim Nahman Bialik (1873-1934). Poeta. Judeu nascido na Rússia. Falecido em Tel Aviv, é conhecido como o Poeta Nacional de Israel.

¿A Cidade do Massacre¿ foi escrito por Bialik em homenagem às vítimas do Pogrom de Kishinev, ocorrido em 1903. A sua profunda e emotiva descrição de um sofrimento inimaginável torna-o extraordinariamente apropriado para recordar Auschwitz.

[tradução preliminar da chamada ¿versão curta¿ do poema], retirado ao Rua da Judiaria

(homenagem singela aos que sofreram)


Terça-feira, Janeiro 25, 2005

Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

(Carlos Drummond de Andrade), tirado ao Abrupto



...
Deixem-nos o planeta despido de árvores de estrelas
a nós os poetas que estrangulámos todos os pássaros
para ouvirmos mais alto o silêncio dos homens
...

José Gomes Ferreira
"panfleto contra a paisagem" VI
antologia poética
diabril editora, na Romã de Vidro

Sábado, Janeiro 22, 2005

Pedaço de mim
Chico Buarque/1977-1978
Para a peça Ópera do malandro, de Chico Buarque


Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

(Oferta da Silvia Chueire, que muito agradecemos)

Sexta-feira, Janeiro 21, 2005

D. Sebastião [n. 20 Janeiro de 1554]

"Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?"

[F. Pessoa, in Mensagem], retirado ao Almocreve



"Ser navegador ... Ser navegador
Não é termos sido é sermos ainda
É irmos a Vénus ou seja onde for
Esperar os cornos onde o espaço finda

É haver Camões como uma revolta
E haver Gil Vicente como um desafio
A esse Encoberto que nunca mais volta
Porque é pretexto do nosso vazio"

[Natália Correia, in De Comunicação, 1959], retirado ao Almocreve


Cantiga do Ódio

O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?

(Carlos de Oliveira), tirado ao Abrupto

Quinta-feira, Janeiro 20, 2005

Lição de Biologia

No reino animal
não há cores necessárias
mas animais do reino
utilizam cores convenientes.
É velho o mimetismo
sabido de animais sem raciocínio
que atacam uns e outros se defendem
nunca (curiosamente) por a cor ser aquela
ou outra diferente
mas porque se defende ou apetece
a carne submersa em qualquer cor.
Resulta disto o simples corolário
de ser conveniente a certos apetites
usar o mimetismo e abocanhar
em nome duma pele
a pelo e o resto de quem passa perto.
Jogos de luz de pronto se diriam
estes que na luz entretecem
cumplicidades de cores
não fossem os hábitos sombrios
destes predadores.
Tantos mais que se conhece
serem daltónicas as suas fomes
pois notícia não há de que algum
rejeite por almoço
um animal da sua mesma cor.
Diferencia-os o diâmetro das fauces
o grau do apetite é rigorosamente infindo.
E isto os mata
que não há digestões
para fazer o quilo de tais fomes.
Inevitavelmente, os sáurios empaturram
e, de comerem sempre,
ficam duma cor definitiva em todos os mortais.



Leite de Vasconcelos, tirado ao Maschamba


Escrevo já com a noite
em casa. Escrevo
sobre a manhã em que escutava
o rumor da cal ou do lume,
e eras tu somente
a dizer o meu nome.
Escrevo para levar à boca
o sabor da primeira
boca que beijei a tremer.
Escrevo para subir às fontes.
E voltar a nascer.


Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede, Fundação Eugénio de Andrade, Porto, 2001

roubado ao Nocturno com Gatos


As Amoras

O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade, roubado ao Linha de Cabotagem


Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

Eugénio de Andrade
*
Parabéns pelos 82 anos de vida. Aguardamos mais.


Quarta-feira, Janeiro 19, 2005

REQUIEM POR MIM

Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.

Miguel Torga
Coimbra, 10 de Dezembro de 1993, «roubado» ao Fumaças.
*
A devida homenagem. Simples, mas com o pensamento no homem que foi Homem, que foi gente, que foi pedra, solo, árvore, sangue a pulsar pelo seu povo, no seu povo. Pelo Homem que foi povo. E raramente gosto de usar a palavra povo, a não ser quando ela encerra este sentimento do que é nosso, daquilo que nos constitui, da nossa massa, do nosso sangue. Dos nossos defeitos levados com graça, mas à procura da mudança, da melhoria, sem esquecer o respeito pela gente, pelas pessoas, o amor pelo outro. A procura do entendimento. Quem somos nós afinal? Quem somos nós como povo?
Um abraço ao homem que lia os seus poemas com o sotaque das ventanias serranas, por cima do granito em que eram esculpidos.





Lua Adversa

Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida !
Perdição da vida minha !
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia seu interminável fuso !
Não me encontro com ninguém

(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles, roubado ao Planando II


Segunda-feira, Janeiro 17, 2005

TOADA DO LADRÃO

A mim não me roubaram
Porque eu nada tinha.
Mas roubaram tudo
À minha vizinha.

Vejam os senhores:
Roubaram-lhe a ela
A filha mais grácil,
A filha mais bela.

Nem na sua casa,
Nem na freguesia,
Sequer no concelho,
Melhor não havia.

Prendada, bonita...
E depois... uns modos
De matar a gente,
De prender a todos.

Dizia a vizinha
Que era o seu tesoiro;
Que valia mais
Que a prata e que o oiro.

Que a não trocaria
Por coisa nenhuma;
Que filhas assim
Só havia uma.

Pois hoje um ladrão
Que há muito a mirava
Entrava-lhe em casa
Para sempre a levava.

É a minha vizinha
Dona de solares
E de longas terras
Com rios e pomares.

E de jóias raras
Que ninguém mais tinha,
Ei-la num instante
Pobrinha... pobrinha...

(Tem pomares ainda,
Tem jóias, tem oiro...
Mas de que lhe servem
Sem o seu tesoiro?)

- Vizinha e senhora,
Não me queira mal!
Se há ladrões felizes
Sou o mais feliz
Que há em Portugal.

Sebastião da Gama, tirado ao Fumaças

Domingo, Janeiro 16, 2005

In the Next Galaxy

Things will be different.
No one will lose their sight,
their hearing, their gallbladder.
It will be all Catskills with brand
new wrap-around verandas.
The idea of Hitler will not
have vibrated yet.
While back here,
they are still cleaning out
pockets of wrinkled
Nazis hiding in Argentina.
But in the next galaxy,
certain planets will have true
blue skies and drinking water.

(Ruth Stone), «roubado» ao Abrupto.

Aqui colocado também para homenagear a ida a Titã.


Sábado, Janeiro 15, 2005

Samba e Amor

Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã
Escuto a correria da cidade, que arde
E apressa o dia de amanhã
De madrugada a gente ainda se ama
E a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna a nossa cama, reclama
Do nosso eterno espreguiçar
No colo da bem-vinda companheira
No corpo do bendito violão
Eu faço samba e amor à noite inteira
Não tenho a quem prestar satisfação
Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito mais o que fazer
Escuto a correria da cidade, que alarde
Será que é tão difícil amanhecer?
Não sei se preguiçoso ou se covarde
Debaixo do meu cobertor de lã
Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã

Chico Buarque de Hollanda


O Ganso Selvagem (Oswaldo Montenegro)

O ganso selvagem na borda do dia
Costura seu vôo por cima do mar
Faz amor com o vento
E o sol, por magia
Toca suas penas querendo dançar
E dança na lua a tal profecia
Que faz de dois corpos um corpo a voar
E faz do seu vôo dança e magia
E marca no dia a pintura que riscou no ar



A bomba atômica


e=mc2
Einstein


Deusa, visão dos céus que me domina
...tu que és mulher e nada mais!
(Deusa, valsa carioca.)

I

Dos céus descendo
Meu Deus eu vejo
De pára-quedas?
Uma coisa branca
Como uma fôrma
De estatuária
Talvez a fôrma
Do homem primitivo
A costela branca!
Talvez um seio
Despregado à lua
Talvez o anjo
Tutelar cadente
Talvez a Vênus
Nua, de clâmide
Talvez a inversa
Branca pirâmide
Do pensamento
Talvez o troço
De uma coluna
Da eternidade
Apaixonado
Não sei indago
Dizem-me todos
É A BOMBA ATÔMICA.

Vem-me uma angústia.

Quisera tanto
Por um momento
Tê-la em meus braços
A coma ao vento
Descendo nua
Pelos espaços
Descendo branca
Branca e serena
Como um espasmo
Fria e corrupta
Do longo sêmen
Da Via Láctea
Deusa impoluta
O sexo abrupto
Cubo de prata
Mulher ao cubo
Caindo aos súcubos
Intemerata
Carne tão rija
De hormônios vivos
Exacerbada
Que o simples toque
Pode rompê-la
Em cada átomo
Numa explosão
Milhões de vezes
Maior que a força
Contida no ato
Ou que a energia
Que expulsa o feto
Na hora do parto.

II

A bomba atômica é triste
Coisa mais triste não há
Quando cai, cai sem vontade
Vem caindo devagar
Tão devagar vem caindo
Que dá tempo a um passarinho
De pousar nela e voar...
Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar!

Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar
Mas que ao matar mata tudo
Animal e vegetal
Que mata a vida da terra
E mata a vida do ar
Mas que também mata a guerra¿
Bomba atômica que aterra!
Pomba atônita da paz!

Pomba tonta, bomba atômica
Tristeza, consolação
Flor puríssima do urânio
Desabrochada no chão
Da cor pálida do helium
E odor de rádium fatal
L¿lia mineral carnívora
Radiosa rosa radical.

Nunca mais, oh bomba atômica
Nunca, em tempo algum, jamais
Seja preciso que mates
Onde houve morte demais:
Fique apenas tua imagem
Aterradora miragem
Sobre as grandes catedrais:
Guarda de uma nova era
Arcanjo insigne da paz!

III

Bomba atômica, eu te amo! és pequenina
E branca como a estrela vespertina
E por branca eu te amo, e por donzela
De dois milhões mais bélica e mais bela
Que a donzela de Orleans; eu te amo, deusa
Atroz, visão dos céus que me domina
Da cabeleira loura de platina
E das formas aerodivinais
¿ Que és mulher, que és mulher e nada mais!
Eu te amo, bomba atômica, que trazes
Numa dança de fogo, envolta em gazes
A desagregação tremenda que espedaça
A matéria em energias materiais!
Oh energia, eu te amo, igual à massa
Pelo quadrado da velocidade
Da luz! alta e violenta potestade
Serena! Meu amor, desce do espaço
Vem dormir, vem dormir no meu regaço
Para te proteger eu me encouraço
De canções e de estrofes magistrais!
Para te defender, levanto o braço
Paro as radiações espaciais
Uno-me aos líderes e aos bardos, uno-me
Ao povo, ao mar e ao céu brado o teu nome
Para te defender, matéria dura
Que és mais linda, mais límpida e mais pura
Que a estrela matutina! Oh bomba atômica
Que emoção não me dá ver-te suspensa
Sobre a massa que vive e se condensa
Sob a luz! Anjo meu, fora preciso
Matar, com tua graça e teu sorriso
Para vencer? Tua enérgica poesia
Fora preciso, oh deslembrada e fria
Para a paz? Tua fragílima epiderme
Em cromáticas brancas de cristais
Rompendo? Oh átomo, oh neutrônio, oh germe
Da união que liberta da miséria!
Oh vida palpitando na matéria
Oh energia que és o que não eras
Quando o primeiro átomo incriado
Fecundou o silêncio das Esferas:
Um olhar de perdão para o passado
Uma anunciação de primaveras!

Vinicius de Moraes

in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: "O encontro do cotidiano"


Sexta-feira, Dezembro 31, 2004

Lição sobre a água

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.

É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, ácidos, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.

Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.

António Gedeão, Poesias completas

No Porto de Abrigo

Quinta-feira, Dezembro 30, 2004

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,

Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!

Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca

No Porto de Abrigo



Meu Nosso Senhor, ando eu molestado
com todos os vícios que me foste dar.
Sou dos putanheiros o mais porfiado;
não menos me apraz os dados jogar;
e é grande o prazer que sinto em errar
por estas vielas, do mundo apartado.

Se de melhor vida fora venturoso,
lograra mais preço e mais honras ter.
Mas deste foder mais me apraz o gozo;
e o destas tabernas, e o deste beber.
Já que outra virtude não posso valer,
valha-me viver contente e viçoso.

Se não valho nada e não alimento
esperança de alguma virtude alcançar,
não quero perder este arreitamento,
tão pouco estas putas e este disputar.
Por outras fronteiras não quero eu andar,
trocando o meu viço por agastamento.

E muitos mais vícios acrescentaria,
que cúmplices são do meu desmerecer.
Nunca frequentei a tafularia (jogo),
sem ali desordens, distúrbios fazer;
e, cobardemente, ponho-me a mexer
buscando agasalho entre a putaria.

Quando consolado de muito gozar,
merendo, e, depois, ponho-me a caminho,
aí deixo as putas meus vícios gabar,
louvando-me as manhas e o descaminho.

(Martim Soares)
No Diz que Disse.com


É urgente o amor
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
Ódio, solidão e crueldade,
Alguns lamentos,
Muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
Multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e risos
e manhãs claras.

Cai o silêncio no pano e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

(Eugénio de Andrade)

*
Bom dia.

Quarta-feira, Dezembro 29, 2004

Contradições


Tanto de meu estado me acho incerto,
que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio;
o mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio;
agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu voando;
numa hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.

Luís de Camões.
(retirado do das letras)


Segunda-feira, Dezembro 27, 2004

Publicaremos aqui a poesia que faz os nossos dias, a nossa casa. Contribua.
27 de Dezembro de 2004.


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27 de Dezembro de 2005