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Segunda-feira, Junho 20, 2005
NOZ DE FOGO - VITORINO NEMÉSIO Tu me deste a Palavra, a noz do fogo Se o miolo te ficou tenho os dedos queimados. Dá Deus nozes, Senhor... Sem dentes, desde logo, Teu Banquete revolta os desdentados. O Pão esperou na Voz fome e saliva Ninguém comeu senão da própria suficiência: Ao menos o Menino tem gengiva, Saboreia a inocência. Tende piedade dos Críticos, Dai-lhes o Best-Seller Engrossarão o seu coro. Tudo o que for Sentido - desterrado E oculto no choro! Fazei guardar por anjos A Significação E em nossa carne eles tenham Ceva e consolação. À entrada do Verbo, imo da Morte, Ponde uma folha a espada: Guardaremos a Vida e o sangue ao Norte Do Nada. Vitorino Nemésio Publicado por João Carvalho Fernandes às 09:00 PM no Fumaças. Sábado, Junho 18, 2005
se eu pudesse pudesse eu descolar os olhos do oceano, onde permanecem fixos, verdes como se fossem metáfora. talvez eles viajassem outras viagens, talvez lessem poemas, talvez mirassem carinhosamente outras paragens. pudesse eu não ter impregnado em mim o cheiro marítimo, salgado como se fosse lágrima derramada. talvez sentisse outros sabores, talvez entregasse a pele a algum lábio rouco. talvez respirasse um ar desconhecido e louco. pudesse eu não ter esta presença vívida, a tua ausência cotidiana, aguda, como se fosse fantasma ou surto delirante. talvez minha razão fosse outra, talvez empreendesse uma viagem solo, talvez alcançasse as cores todas da aquarela. mas não, são sempre meus os olhos no horizonte. olhos que vagam, lassos, verdes, no oceano. silvia chueire in Eugenia In The Meadow memória a memória de ti me abraça súbita afoga? cortante reabre a ferida quase cicatrizada resvalo docemente no veneno eficaz sem saída e eu que pensara poder driblar o óbvio como se o corpo se enganasse silvia chueire in Eugenia In The Meadow Ocupamos a paisagem que, desocupada, se ocupa de nós. Tempo de ocupação, este. Somos o estrangeiro que o silêncio de paredes brancas e esquecidas perturbou. Extasiado ao menor rumor de um estio duro e claro -- todo lâminas. Perplexo da memória destes dias sufocados em tédio e cal. Da palavra para a pedra arrastando-se aquáticos -- as mais sazonadas as menos polidas. Crestada que foi, na raiz do tempo, toda a subliminar tentativa de retorno. Eduardo Pitta, retirado ao seu sítio na Internet (há lá mais!). Retirado ao Almocreve das Petas [Amor] "Amor, que te dizer, quando honesto relógio junto à cama é laranja de que restam só dois gomos? Amor, que te dizer, Quando o gosto azedo desta pressa Mancha os lençóis usados Da pensão? Amor?" [Eduardo Guerra Carneiro, in Isto anda tudo ligado, 1970] Mais um retirado do Rua da Judiaria: O fim do homem é a morte June 13th, 2005 Olho para o mundo ¿ e ele assemelha-se a um jardim com as suas crianças de permeio, como erva. Alguns, cuja memória é como a fragrância do bálsamo, e outros, cujos rebentos são como feno. Mas sobre todos a Morte empunha a sua foice, e a sepultura guardará esta colheita. Contemplo os túmulos de outras eras, de dias antigos, onde pessoas dormem o eterno sono. Não há inimizade entre estas gentes ¿ não há inveja; Não há amor nem há ódio; E o meu pensamento, vislumbrando-os, falha em discernir o mestre do escravo. Onde estão todos os túmulos de todos os homens que morreram na terra desde os dias de outrora? Uma sepultura é cavada sobre outra, e corpos são enterrados sobre corpos; em buracos na terra eles jazem juntos ¿ os pedaços de cal e as pedras preciosas. Moisés ben Jacob Ha-Sallah ibn Ezra (conhecido em árabe como Abu Harun Musa) (1070-1138), judeu de Granada. Filósofo, linguista e poeta medieval. Em memória de Eugénio de Andrade e Álvaro Cunhal. Eugénio de Andrade. Adeus português. Tinham o rosto aberto a quem passava. Tinham lendas e mitos e frio no coração. Tinham jardins onde a lua passeava de mãos dadas com a água e um anjo de pedra por irmão. Tinham como toda a gente o milagre de cada dia escorrendo pelos telhados; e olhos de oiro onde ardiam os sonhos mais tresmalhados. Tinham fome e sede como os bichos, e silêncio à roda dos seus passos. Mas a cada gesto que faziam um pássaro nascia dos seus dedos e deslumbrado penetrava nos espaços. Francisco José Viegas in Aviz Roubado ao excelente Rua da Judiaria (espero que o Nuno Guerreiro não se importe): A beleza das estrelas June 17th, 2005 Contemplo a beleza das estrelas que cobrem a face dos céus, Imagino-as como um jardim em flor ¿ Até que a alva alba sobe, como pomba, Debaixo das asas de um corvo Que esvoaça para longe. Moisés ibn Ezra (1070-1138), filósofo, linguista e poeta medieval. Judeu de Granada. Segunda-feira, Maio 02, 2005
At Pleasure Bay In the willows along the river at Pleasure Bay A catbird singing, never the same phrase twice. Here under the pines a little off the road In 1927 the Chief of Police And Mrs. W. killed themselves together, Sitting in a roadster. Ancient unshaken pilings And underwater chunks of still-mortared brick In shapes like bits of puzzle strew the bottom Where the landing was for Price's Hotel and Theater. And here's where boats blew two blasts for the keeper To shunt the iron swing-bridge. He leaned on the gears Like a skipper in the hut that housed the works And the bridge moaned and turned on its middle pier To let them through. In the middle of the summer Two or three cars might wait for the iron trusswork Winching aside, with maybe a child to notice A name on the stern in black-and-gold on white, Sandpiper, Patsy Ann, Do Not Disturb, The Idler. If a boat was running whiskey, The bridge clanged shut behind it as it passed And opened up again for the Coast Guard cutter Slowly as a sundial, and always jammed halfway. The roadbed whole, but opened like a switch, The river pulling and coursing between the piers. Never the same phrase twice, the catbird filling The humid August evening near the inlet With borrowed music that he melds and changes. Dragonflies and sandflies, frogs in the rushes, two bodies Not moving in the open car among the pines, A sliver of story. The tenor at Price's Hotel, In clown costume, unfurls the sorrow gathered In ruffles at his throat and cuffs, high quavers That hold like splashes of light on the dark water, The aria's closing phrases, changed and fading. And after a gap of quiet, cheers and applause Audible in the houses across the river, Some in the audience weeping as if they had melted Inside the music. Never the same. In Berlin The daughter of an English lord, in love With Adolf Hitler, whom she has met. She is taking Possession of the apartment of a couple, Elderly well-off Jews. They survive the war To settle here in the Bay, the old lady Teaches piano, but the whole world swivels And gapes at their feet as the girl and a high-up Nazi Examine the furniture, the glass, the pictures, The elegant story that was theirs and now Is part of hers. A few months later the English Enter the war and she shoots herself in a park, An addled, upper-class girl, her life that passes Into the lives of others or into a place. The taking of lives--the Chief and Mrs. W. Took theirs to stay together, as local ghosts. Last flurries of kisses, the revolver's barrel, Shivers of a story that a child might hear And half remember, voices in the rushes, A singing in the willows. From across the river, Faint quavers of music, the same phrase twice and again, Ranging and building. Over the high new bridge The flashing of traffic homeward from the racetrack, With one boat chugging under the arches, outward Unnoticed through Pleasure Bay to the open sea. Here's where the people stood to watch the theater Burn on the water. All that night the fireboats Kept playing their spouts of water into the blaze. In the morning, smoking pilasters and beams. Black smell of char for weeks, the ruin already Soaking back into the river. After you die You hover near the ceiling above your body And watch the mourners awhile. A few days more You float above the heads of the ones you knew And watch them through a twilight. As it grows darker You wander off and find your way to the river And wade across. On the other side, night air, Willows, the smell of the river, and a mass Of sleeping bodies all along the bank, A kind of singing from among the rushes Calling you further forward in the dark. You lie down and embrace one body, the limbs Heavy with sleep reach eagerly up around you And you make love until your soul brims up And burns free out of you and shifts and spills Down over into that other body, and you Forget the life you had and begin again On the same crossing--maybe as a child who passes Through the same place. But never the same way twice. Here in the daylight, the catbird in the willows, The new café, with a terrace and a landing, Frogs in the cattails where the swing-bridge was-- Here's where you might have slipped across the water When you were only a presence, at Pleasure Bay. Robert Pinsky, aqui. Segunda-feira, Abril 18, 2005
na noite na noite entre enganos dizemos alguma coisa que parece prece entre as horas longuíssimas da madrugada mulheres e homens dão passos em falso sabendo no íntimo que é assim. guardam o afeto nalgum canto obscuro e já não distinguem o que há. se mãos vazias amor desmedido ou apenas procura vã e lágrimas inevitáveis. silvia chueire, in eugeniainthemeadow Definitivo Água e terra tomam-se na fúria do princípio, morre-se escondidamente algures em silêncios que ninguém deplora e o tempo é de risadas ígneas sem pudor. Aqui nada ¿ silêncio da manhã que nasce como as outras: doçura envenenada dos dias e tudo tão quieto excepto o peito e o ensaio de um poema. Não serve para nada o poema: não resgata não limpa não sara. Antes um vidro quebrado e o corte limpo da aresta suja no centro do peito ou do mundo. Soledade Santos, in Nocturno com Gatos. As pedras As pedras falam? pois falam mas não à nossa maneira, que todas as coisas sabem uma história que não calam. Debaixo dos nossos pés ou dentro da nossa mão o que pensarão de nós? O que de nós pensarão? As pedras cantam nos lagos choram no meio da rua tremem de frio e de medo quando a noite é fria e escura. Riem nos muros ao sol, no fundo do mar se esquecem. Umas partem como aves e nem mais tarde regressam. Brilham quando a chuva cai. Vestem-se de musgo verde em casa velha ou em fonte que saiba matar a sede. Foi de duas pedras duras que a faísca rebentou: uma germinou em flor e a outra nos céus voou. As pedras falam? pois falam. Só as entende quem quer, que todas as coisas têm um coisa para dizer. (Maria Alberta Menéres) (retirado ao Abrigo de Pastora) Nem sempre sou igual no que digo e escrevo. Nem sempre sou igual no que digo e escrevo. Mudo, mas não mudo muito. A cor das flores não é a mesma ao sol De que quando uma nuvem passa Ou quando entra a noite E as flores são cor da sombra. Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores. Por isso quando pareço não concordar comigo, Reparem bem para mim: Se estava virado para a direita, Voltei-me agora para a esquerda, Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés ¿ O mesmo sempre, graças ao céu e à terra E aos meus olhos e ouvidos atentos E à minha clara simplicidade de alma... (Alberto Caeiro) (retirado ao Abrigo de Pastora) Eating Poetry Ink runs from the corners of my mouth. There is no happiness like mine. I have been eating poetry. The librarian does not believe what she sees. Her eyes are sad and she walks with her hands in her dress. The poems are gone. The light is dim. The dogs are on the basement stairs and coming up. Their eyeballs roll, their blond legs burn like brush. The poor librarian begins to stamp her feet and weep. She does not understand. When I get on my knees and lick her hand, she screams. I am a new man. I snarl at her and bark. I romp with joy in the bookish dark. (Mark Strand) (retirado ao Abrigo de Pastora) A fome de Camões Este vulto, portanto, que caminha Altas horas, ao frio das nortadas, É Camões que se definha Nas ruas de Lisboa abandonadas. É Camões que a sorte vil, mesquinha, Faz em noites de fome torturadas, Ele o velho cantor de heróis guerreiros!... Vagar errante como os vis rafeiros. Morreu-lhe o escravo, o seu fiel amigo, O seu amparo e seu bordão no mundo, Morreu-lhe o humilde companheiro antigo, No seu vácuo deixando um vácuo fundo. Hoje, pois, triste, velho, sem abrigo, Faminto, abandonado e vagabundo, Tenta esmolar também pelas esquinas. Ó lágrimas!... Ó glória! Ó ruínas!... (Gomes Leal) (retirado ao Abrigo de Pastora) Odeio este tempo detergente Odeio este tempo detergente um tempo português que até utilizou os primeiros acordes da quinta sinfonia de beethoven como indicativo da voz do ocidente chamada actualmente a emissão em línguas estrangeiras um tempo que parou e só mudou o nome que puseram num mundo que muda a coisas que afinal permaneceram um tempo português que alguma vez até em camões vê o antecessor e criador de coisa como a nato com a profética visão de quem consegue conceber tal obra bem pouco literária por sinal e só possível graças à visão de quem com um só olho vê as coisas quatrocentos anos antes Odeio este meu tempo detergente de uma poesia que discreta até se erótica antigamente hoje se prostitui numa publicidade devida a algum poeta público que a certo detergente deu de repente esse teu nome musical de musa a ti precisamente a ti nesse teu rosto sorridente onde o poeta público publicitário porventura viu sobressair teu riso nesse território de alegria e a brancura mais alva nesses dentes alvejar E eu que faço eu aqui em todo este tempo detergente quando sinto subitamente cem saudades tuas que posso que não seja odiar mais um meio que jamais tentaria impedir evitaria um tempo que consente até contente que faças dentro em pouco um ano mais um meio onde nem mesmo eu mulher afinal sei que terei de fazer para deter ao menos um momento essa tua idade a tua juventude se possível anos antes de haver-te conhecido por acaso e já tarde na cidade onde nasceste cidade que unamuno diz viver morrer apenas por amor amor morto ou mortal mas amor imortal cidade solidão as ruas muita gente os sons o sol difusos e confusos corredores de uma faculdade folhas que se renovam rostos que outros rostos tão firmes tão presentes permanentes um só ano antes friamente destroem sem deixar sequer ao menos uma marca nessa fria impassível pedra o tempo os sóis dos séculos cingindo os cintos da cidade dessa cidade onde o povo morre novo à volta do mesmo monumento destinado a exaltá-lo cidade onde afinal a paisagem é pretexto para o homem cidade portuguesa ó portugal ó parte da hispânia maior maneira triste de se ser ibéria onde da terra emerge o homem que depois o rosto nela imerge ó portugal dos pescadores de espinho espinho do suicida laranjeira espinho praia antiga amiga e conhecida de unamuno a praia dos seus últimos passeios portugueses angústia atlântica e odor ó dor olor a campo praia que so' existe quando alguém a veste coisa que foi somente quando tu mulher a viste Aqui em portugal aqui na vasta praia portuguesa aqui nasci e ao nascer morri como morri a morte que por sorte sempre tive pesadamente do mais alto do meu peso dos meus anos em cada um dos sítios onde um dia estive Aqui tive dezasseis anos aos dezasseis anos aqui só vejo pés há muitos anos já Aqui o meu chapéu de chuva mais ao sul aceita em chapa o sol chapéu que fecho quando fecha o sol definidor do dia Tive um passado agora inacessível um passado tão alto como a torre do relógio da aldeia que pontual pontua a passagem do tempo um tempo não ainda detergente um tempo afinal só visível no sensível alastrar da sombra ao longo desse pátio só possível ao adolescente que mais tarde e mais só e de maneira mais sensível mais só se sentirá no meio da imensa gente que se sentia ali entre a andorinha e a nespereira Não o sabia então mas dominava um mundo esse mundo que espero que me espere um dia ao fundo lá quando findo o dia sob o chão me afundo e ao final em terra e em verdade é que me fundo Mas eu aqui completamente envolto neste tempo detergente é da segunda-feira e da semana que preciso pois posso lutar melhor por uma luz melhor do que esta luz do mar à hora do entardecer É da cidade é da publicidade é da perversidade que preciso e não tenho aqui na praia Não tenho nem o mar nem tão rudimentar a técnica de olhar alguém as minhas mãos para me devassar a vã vida privada É de inverno é domingo estou sozinho aqui na praia regresso a casa à noite apanho eu próprio a roupa no quintal e tenho a sensação de quem alguma coisa faz pela primeira e sente bem ou mal que tarde toma agora o seu banho lustral (Ruy Belo) (retirado ao Abrigo de Pastora) sacrificaram tudo a deus. e o que não sacrificaram a deus sacrificaram pelos vindouros os quais sacrificaram tudo a deus. e o que não sacrificaram a deus sacrificaram pelos vindouros os quais sacrificaram tudo a deus. e o que não sacrificaram a deus sacrificaram pelos vindouros os quais sacrificaram tudo a deus. e o que não sacrificaram a deus sacrificaram pelos vindouros e assim sucessivamente. para os vindouros ainda não. para deus já talvez tenha valido a pena. Alberto Pimenta Obra Quase Incompleta Ed. Fenda, 1990 (retirado ao Divas & Contrabaixos) Sem título não deixes na solidão a linha recta quebra-lhe uma companhia basta um ângulo como ao deserto a duna. Abril 05, Helena F. Monteiro, in Linha de Cabotagem Sábado, Março 26, 2005
Para um amigo tenho sempre um relógio esquecido em qualquer fundo de algibeira. Mas esse relógio não marca o tempo inútil. São restos de tabaco e de ternura rápida. É um arco-íris de sombra, quente e trémulo. É um copo de vinho com o meu sangue e o sol. António Ramos Rosa de Viagem através de uma Nebulosa, 1960 in O Poeta na Rua, Antologia Portátil, Ed. quasi (oferta Divas & Contrabaixos) Terça-feira, Março 22, 2005
Roubado ao Fumaças. ESCADA EM CARACOL É uma escada em caracol e que não tem corrimão. Vai a caminho do Sol mas nunca passa do chão. Os degraus, quanto mais altos, mais estragados estão. Nem sustos nem sobressaltos servem sequer de lição. Quem tem medo não a sobe. Quem tem sonhos também não. Há quem chegue a deitar fora O lastro do coração. Sobe-se numa corrida. Corre-se p'rigos em vão. Adivinhaste: é a vida a escada sem corrimão. David Mourão-Ferreira Roubado ao Fumaças. O Captain! My Captain! O CAPTAIN! my Captain! our fearful trip is done, The ship has weather'd every rack, the prize we sought is won, The port is near, the bells I hear, the people all exulting, While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring; But O heart! heart! heart! O the bleeding drops of red, Where on the deck my Captain lies, Fallen cold and dead. O Captain! my Captain! rise up and hear the bells; Rise up¿for you the flag is flung¿for you the bugle trills, For you bouquets and ribbon'd wreaths¿for you the shores a-crowding, For you they call, the swaying mass, their eager faces turning; Here Captain! dear father! This arm beneath your head! It is some dream that on the deck, You've fallen cold and dead. My Captain does not answer, his lips are pale and still, My father does not feel my arm, he has no pulse nor will, The ship is anchor'd safe and sound, its voyage closed and done, From fearful trip the victor ship comes in with object won; Exult O shores, and ring O bells! But I with mournful tread, Walk the deck my Captain lies, Fallen cold and dead. Walt Whitman Roubado ao ABRUPTO. Semântica Electrónica Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado Ordinalmente Ordenadamente Ordeiramente. Mas o desordeiro Quebrou o ordenador E eu já não dou ordens coordenadas Seja a quem for. Então resolvo tomar ordens Menores, maiores, E sou ordenado, Enfim --- o ordenado Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado. --- Mas --- diz-me a ordenança --- Você não pode ordenhar uma máquina: Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca. De mais a mais, você agora é padre, E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha Velhaca, mesmo uma ovelha velha, Quanto mais uma vaca! Pois uma máquina é vicária (você é vigário?): Vaca (em vacância) à vaca. São ordens... Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado, Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa (Para acabar a conversa Como aprendi na Infantaria), Ordenhado chorei meu triste fado. Mas tristeza ordenhada é nata de alegria: E chorei leite condensado, Leite em pó, leite céptico asséptico, Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético! (Vitorino Nemésio) Roubado ao ABRUPTO. Of Politics, & Art --for Allen Here, on the farthest point of the peninsula The winter storm Off the Atlantic shook the schoolhouse. Mrs. Whitimore, dying Of tuberculosis, said it would be after dark Before the snowplow and bus would reach us. She read to us from Melville. How in an almost calamitous moment Of sea hunting Some men in an open boat suddenly found themselves At the still and protected center Of a great herd of whales Where all the females floated on their sides While their young nursed there. The cold frightened whalers Just stared into what they allowed Was the ecstatic lapidary pond of a nursing cow's One visible eyeball. And they were at peace with themselves. Today I listened to a woman say That Melville might Be taught in the next decade. Another woman asked, "And why not?" The first responded, "Because there are No women in his one novel." And Mrs. Whitimore was now reading from the Psalms. Coughing into her handkerchief. Snow above the windows. There was a blue light on her face, breasts and arms. Sometimes a whole civilization can be dying Peacefully in one young woman, in a small heated room With thirty children Rapt, confident and listening to the pure God rendering voice of a storm. (Norman Dubie) Roubado ao Fumaças. Sabes quem sou? Eu não sei. Sabes quem sou? Eu não sei. Outrora, onde o nada foi, Fui o vassalo e o rei. É dupla a dor que me dói. Duas dores eu passei. Fui tudo que pode haver. Ninguém me quis esmolar; E entre o pensar e o ser Senti a vida passar Como um rio sem correr. Fernando Pessoa Roubado ao ABRUPTO. Chansons Innocentes: I in Just- spring when the world is mud- luscious the little lame balloonman whistles far and wee and eddieandbill come running from marbles and piracies and it's spring when the world is puddle-wonderful the queer old balloonman whistles far and wee and bettyandisbel come dancing from hop-scotch and jump-rope and it's spring and the goat-footed balloonMan whistles far and wee (E. E. Cummings) Dia Mundial da Poesia, seja lá o que isso for. Venham lá os vossos poemas favoritos com uma estória a acompanhar. Este espaço sente a vossa falta. Assim vou ter de ir por aí roubando. Que coisa feia. Quinta-feira, Março 03, 2005
Girassol Girassol Rasga a tua indecisão E liberta-te. Vem colar O teu destino Ao suspiro Deste hirto jasmim Que foge ao vento Como Pensamento perdido. Aderido Aos teus flancos Singram navios. Navios sem mares Sem rumos De velas rotas. Amanheceu! Orça o teu leme E entra em mim Antes que o Sol Te desoriente Girassol! Corsino Fortes in "Claridade", n°9, 1960 No Kitanda. A NAVE DE ALCOBAÇA Vazia, vertical, de pedra branca e fria, longa de luz e linhas, do silêncio a arcada sucessiva, madrugada mortal da eternidade, vácuo puro do espaço preenchido, pontiaguda como se transparência cristalina dos céus harmónicos, espessa, côncava de rectas concreção, ar retirado ao tremor último da carne viva, pedra não-pedra que em pilar's se amarra em feixes de brancura, geometria do espírito provável, proporção da essência tripartida, ideograma da muda imensidão que se contrai na perspectiva humana. Ambulatório da expectação tranquila. Nave e cetro, e sepulcral resíduo, tempestade suspensa e transferida. Rosa e tempo Escada horizontal. Cilindro curvo Exemplo e manifesto. Paz e forma do abstracto e do concreto.Hierarquia de uma outra vida sobre a terra. Gesto de pedra branca e fria, sem limites por dentro dos limites. Esperança vazia e vertical Humanidade. Araraquara,Brasil, 27 Novembro 62 Jorge de Sena - in Metamorfoses-Poesia II- Moraes editores, Lisboa,1978 No Ao Longe os Barcos de Flores. À entrada do poema Escuta e fixa-te à luz familiar: a planta que junto da mesa se alçou arbusto nestes anos de fixidez à terra exígua do pote e ao silêncio rosado da casa; o Modigliani ao alcance dos olhos, as mãos de Alice vê um dia foram as tuas assim pousadas sobre um vestido intemporalmente azul; o vale flutuante para lá das vidraças e os sobreiros que podes ouvir ao vento mas daqui não vês. E cobrindo tudo a abóbada da música. Essa é a moldura estás em casa agora senta-te e escreve. Pode ser que o poema venha de soslaio, rumor meditativo de palavras soltas chamadas pela ondulação da música e do vale ao longe. E pode ser consigas evitar o ponto em que não deves tocar, esse onde outras palavras jazem cheias de fúria e perplexidade. Soledade Santos ... gosto que há no mundo Amar dentro do peito uma donzela; Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura; Falar-lhe, conseguindo alta ventura, Depois da meia-noite na janela: Fazê-la vir abaixo, e com cautela Sentir abrir a porta, que murmura; Entrar pé ante pé, e com ternura Apertá-la nos braços casta e bela: Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos, E a boca, com prazer o mais jucundo, Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos: Vê-la rendida enfim a amor fecundo; Ditoso levantar-lhe os brancos folhos; É este o maior gosto que há no mundo. Manuel Maria Barbosa du Bocage Sonetos, XII Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas No Divas e Contrabaixos. Quero dormir vogando na água em que os sonhos se escrevem com letra clara. José Bento Um Sossegado Silêncio No Divas e Contrabaixos. Quarta-feira, Março 02, 2005
Momento de poesia* Se me ponho a trabalhar e escrevo ou desenho, logo me sinto tão cansado no que devo à eternidade, que começo a empurrar para diante o tempo e empurro-o, empurro-o à bruta como empurra um atrasado, até que cansado me julgo satisfeito; e o efeito da fadiga é muito igual à ilusão da satisfação! Em troca, se vou passear por aí sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo, compreendo tão bem o que não me diz respeito, sinto-me tão chefe do que é fora de mim dou conselhos tão biblicos aos aflitos de uma aflição que não é minha, dou-me tão perfeitamente conta do que se passa fora das minhas muralhas como sou cego ao ler-me ao espelho, que, sinceramente não sei qual seja melhor, se estar sozinho em casa a dar a manivela ao mundo, se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu. *José de Almada Negreiros [1893- 1970] "800 anos de poesia portuguesa" edição círculo de leitores- 1973 (aqui, no excelenteRomã de Vidro) Domingo, Fevereiro 27, 2005
o tempo dos barcos enquanto bordas o tempo dos barcos constróis a casa com a luz pequena. nos sonos longos, és tu que anoiteces. colhes a curva de um rosto, com clareza teces a alma vã da firmeza nos colos finos, na lâmina dos rios. ó doce pescador, madrugada que fosse a foice dos meus poemas, dá-me os pássaros alinhados as minhas penas. ó cegas torres de marfim, na excentricidade vagabunda da fadiga começa o meu fim. 26.fev.2005 mariagomes obrigado Meu Deus por mais este espantoso dia:pelos saltitantes e virentes espíritos das árvores e um azul autêntico sonho celeste;e por tudo o que é natural o que é infinito o que é sim (eu que morri estou vivo de novo, e este é o dia de anos do sol;este é de anos o dia da vida e do amor e asas:e do alegre grande evento ilimitavelmente terra) como poderia saboreando tocando ouvindo lendo respirando qualquer----erguido do não de todo o nada----ser simplesmente humano duvidar inimaginável de Ti? (agora os ouvidos dos meus ouvidos despertam e agora os olhos dos meus olhos estão abertos) E.E. Cummings. retirado ao Divas e Contrabaixos. «Naquele piquenique de burguesas, Houve uma coisa simplesmente bela, E que, sem ter história nem grandezas, Em todo o caso dava uma aguarela. Foi quando tu, descendo do burrico, Foste colher, sem imposturas tolas, A um granzoal azul de grão-de-bico Um ramalhete rubro de papoulas. Pouco depois, em cima duns penhascos, Nós acampámos, inda o Sol se via; E houve talhadas de melão, damascos, E pão-de-ló molhado em malvasia. Mas, todo púrpuro a sair da renda Dos teus dois seios como duas rolas, Era o supremo encanto da merenda O ramalhete rubro das papoulas!» Cesário Verde. retirado ao Aviz. Sábado, Fevereiro 26, 2005
Aos amigos Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado. Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos, com os livros atrás a arder para toda a eternidade. Não os chamo, e eles voltam-se profundamente dentro do fogo. - Temos um talento doloroso e obscuro. construimos um lugar de silêncio. De paixão. (Herberto Helder), retirado ao Abrupto. Terça-feira, Fevereiro 22, 2005
Quando Eu Partir Quando eu partir, quando eu partir de novo A alma e o corpo unidos, Num último e derradeiro esforço de criação; Quando eu partir... Como se um outro ser nascesse De uma crisália prestes a morrer sobre um muro estéril, E sem que o milagre se abrisse As janelas da vida. . . Então pertencer-me-ei. Na minha solidão, as minhas lágrimas Hão de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência, E eu serei o senhor da minha própria liberdade. Nada ficará no lugar que eu ocupei. O último adeus virá daquelas mãos abertas Que hão de abençoar um mundo renegado No silêncio de uma noite em que um navio Me levará para sempre. Mas ali Hei de habitar no coração de certos que me amaram; Ali hei de ser eu como eles próprios me sonharam; Irremediavelmente... Para sempre. Ruy Cinatti * Retirado ao Kitanda. Da Oração Doce quietação de quem vos ama, Em serviços, Senhor, que tanto quanto Amado sois, tão longe o fim de tanto, Subindo mais, e mais, mais se derrama: Ardendo por arder em viva chama De amor do vosso amor, a voz levanto; Sinto, suspiro, choro, colho, e planto Ao som doutra suave que me chama. Onde se vai, Senhor, quem vos ofende? Donde levais, Deus meu, a quem vos segue? Onde fugir se pode uma de duas? Morto por quem o mata que pretende, Ou que extremos de amor há que nos negue Quem culpas nossas chama ofensas suas? (Frei Agostinho da Cruz) * Retirado ao Abrupto. Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005
COM OS OLHOS SECOS Com os olhos secos - estrelas de brilho inevitável atravós do corpo atravós do espírito sobre os corpos inanimes dos mortos sobre a solidão das vontades inertes nós voltamos Nós estamos regressando África e todo o mundo estará presente no super-batuque festivo sob as sombras do Maiombe no carnaval grandioso pelo Bailundo pela Lunda Com os olhos secos contra este medo da nossa África que herdámos dos massacres e mentiras Nós voltamos África estrelas de brilho irresistível com a palavra escrita nos olhos secos - LIBERDADE. Agostinho Neto, aqui. Notícias do Bloqueio Aproveito a tua neutralidade, o teu rosto oval, a tua beleza clara, para enviar notícias do bloqueio aos que no continente esperam ansiosos. Tu lhes dirás do coração o que sofremos nos dias que embranquecem os cabelos... Tu lhes dirás a comoção e as palavras que prendemos - contrabando - aos teus cabelos. Tu lhes dirás o nosso ódio construído, sustentando a defesa à nossa volta - único acolchoado para a note florescida de fome e de tristezas. Tua neutralidade passará por sobre a barreira alfandegária e a tua mala levará fotografias, um mapa, duas cartas, uma lágrima... Dirás como trabalhamos em silêncio, como comemos silêncio, bebemos silêncio, nadamos e morremos feridos de silêncio duro e violento. Vai pois e noticia com um archote aos que encontrares de fora das muralhas o mundo em que nos vemos, poesia massacrada e medos à ilharga Vai pois e conta nos jornais diários ou escreve com ácido nas paredes o que viste, o que sabes, o que eu disse entre dois bombardeamentos já esperados. Mas diz-lhes que se mantém indevassável o segredo das torres que nos erguem, e suspensa delas uma flor em lume grita o seu nome incandescente e puro. Diz-lhes que se resiste na cidade desfigurada por feridas de granadas e enquanto a água e os víveres escasseiam aumenta a raiva e a esperança reproduz-se EGITO GONÇALVES, EM A VIAGEM COM O TEU ROSTO LÍRICAS PORTUGUESAS, PORTUGÁLIA EDITORA, LISBOA, S.D., 3ª SÉRIE, P.317 * Oferta que muito agradecemos de Helena F. Monteiro. Domingo, Fevereiro 13, 2005
SÚPLICA Agora que o silêncio é um mar sem ondas, E que nele posso navegar sem rumo, Não respondas Às urgentes perguntas Que te fiz. Deixa-me ser feliz Assim, Já tão longe de ti como de mim. Perde-se a vida a desejá-la tanto. Só soubemos sofrer, enquanto O nosso amor Durou. Mas o tempo passou, Há calmaria... Não perturbes a paz que me foi dada. Ouvir de novo a tua voz seria Matar a sede com água salgada Miguel Torga (retirado ao Alma de Poeta) Perecimentos Não sei se o rio que banhava minha cidade ainda corre para o mar. Nem se as paredes da casa onde vivi ainda estão coloridas. Não sei se o asfalto já ocultou as pedras onde viajou o primeiro fusca de meu pai. Nem se cresceu mato ou edifícios brilhantes no lote vago onde brincávamos. Faz tempo esqueci de quais tios sobrinhos e primos nasceram ou morreram. E minha cidade não é mais sequer um retrato na parede. Longe cada ano mais me distancia dos meus primeiros dias da mamadeira no chão da sala dos canarinhos amarelos das goiabas e do limoeiro. Longe cada dia mais me distancio do que fui ou poderia e vou me esquecendo pelos corredores cada vez mais vazios deste meu minúsculo mundo. Adair Carvalhais Júnior Do Nocturno com Gatos, publicado pela Soledade. pode não ser sempre assim; e eu digo que se os teus lábios, que amei, tocarem os de outro, e os teus ternos fortes dedos aprisionarem o seu coração, como o meu não há muito tempo; se no rosto de outro o teu doce cabelo repousar naquele silêncioque conheço, ou naquelas grandiosas contorcidas palavras que, dizendo demasiado, permanecem desamparadamente diante do espírito ausente; se assim for, eu digo, se assim for-- tu do meu coração, manda-me um recado; para que possa ir até ele, e tomar as suas mãos, dizendo, Aceita toda a felicidade de mim. E então voltarei o rosto, e ouvirei um pássaro cantar terrivelmente longe nas terras perdidas. E.E. Cummings in livrodepoemas, Assírio & Alvim (trad. de Cecília Rego Pinheiro) oferta de DivaseContrabaixos Da Madrugada Na madrugada gélida nem os coelhos saíram das tocas nem o céu se azulou o mar é um sopro infantil e dos pássaros nada se ouve. Apenas eu dialogo com a madrugada na escuridão que só o silêncio presencia não são habituais os gestos - praticamente inexistentes ¿ não vá qualquer sopro desconexo perturbar este infinito e todas as vozes que em catarse carrego dentro de mim. Helena F. Monteiro Lisboa, 29 de Janeiro de 2005 gozo como se o corpo líquido galgasse a onda, fundido a ela elevado e puro, gritasse, antes de despencar espuma. silvia chueire Sábado, Fevereiro 12, 2005
Sabedoria Desde que tudo me cansa, Comecei eu a viver. Comecei a viver sem esperança... E venha a morte quando Deus quiser. Dantes, ou muito ou pouco, Sempre esperara: Às vezes, tanto, que o meu sonho louco Voava das estrelas à mais rara; Outras, tão pouco, Que ninguém mais com tal se conformara. Hoje, é que nada espero. Para quê, esperar? Sei que já nada é meu senão se o não tiver; Se quero, é só enquanto apenas quero; Só de longe, e secreto, é que inda posso amar... E venha a morte quando Deus quiser. Mas, com isto, que têm as estrelas? Continuam brilhando, altas e belas. (José Régio) Retirado ao Abrigo de Pastora. BIODIVERSIDADE Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo, que não requerem prática, oficina, suor. Maneiras mais simpáticas de pagar mico e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor. Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo, como há quem não se vexe de ler e decifrar essas palavras bestas estrebuchando inúteis, cágados com as quatro patas viradas pro ar. Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica, de repente é mais que isso, é uma voz, talvez, do outro lado da linha formigando de estática, dizendo algo mais que testando, testando, um dois três, câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos, incapazes de reassumir a posição natural, não são na verdade uma outra forma de vida, tipo um ramo alternativo do reino animal? Paulo Henriques de Britto, Macau. Companhia das Letras. Tirado ao Gavea. Esse lugar de grandes prazeres. Este poema do vencedor do Prémio Portugal Telecom/Brasil. Desse mesmo livro vencedor. De Adélia Freitas. Retirado ao Gavea de Francisco José Viegas: Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos ¿ dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou. Adélia Luzia Prado Freitas nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, no dia 13 de Dezembro de 1935. A sua poesia está reunida em Poesia Reunida, publicada pela Siciliano. Terça-feira, Fevereiro 08, 2005
Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal Nunca mais A tua face será pura limpa e viva Nem o teu andar como onda fugitiva Se poderá nos passos do tempo tecer. E nunca mais darei ao tempo a minha vida. Nunca mais servirei senhor que possa morrer. A luz da tarde mostra-me os destroços Do teu ser. Em breve a podridão Beberá os teus olhos e os teus ossos Tomando a tua mão na sua mão. Nunca mais amarei quem não possa viver Sempre, Porque eu amei como se fossem eternos A glória, a luz e o brilho do teu ser, Amei-te em verdade e transparência E nem sequer me resta a tua ausência. És um rosto de nojo e negação E eu fecho os olhos para não te ver. Nunca mais servirei senhor que possa morrer. Sophia de Mello Breyner Andresen (oferta da especialLouise. que muito agradeço.) Domingo, Fevereiro 06, 2005
Último Brinde Bebo ao lar em pedaços, À minha vida feroz, À solidão dos abraços E a ti, num brinde, ergo a voz... Ao lábio que me traiu, Aos mortos que nada vêem, Ao mundo, estúpido e vil, A Deus, por não salvar ninguém. * Последний тост Я пью за разоренный дом, За злую жизнь мою, За одиночество вдвоем, И за тебя я пью,- За ложь меня предавших губ, За мертвый холод глаз, За то, что мир жесток и груб, За то, что бог не спас. 1934, Anna Akhmatova, pseudónimo de Anna Andreievna Gorenki nasceu nos arredores de Odessa em 1889 e faleceu nos arredores de Moscovo em 1966. (retirado ao Romã de Vidro) A la puta que llevó mis poemas Algunos dicen que debemos eliminar del poema los remordimientos personales, permanecer abstractos, hay cierta razón en esto, pero ¡POR DIOS! ¡Doce poemas perdidos y no tengo copias! ¡Y también te llevaste mis cuadros, los mejores! ¡Es intolerable! ¿Tratas de joderme como a los demás? ¿Por qué no te llevaste mejor mi dinero? Usualmente lo sacan de los dormitorios y de los pantalones borrachos [y enfermos en el rincón. La próxima vez llévate mi brazo izquierdo o un billete de 50, pero no mis poemas. No soy Shakespeare pero puede ser que algún día ya no escriba más, abstractos o de los otros. Siempre habrá dinero y putas y borrachos hasta que caiga la última bomba, pero como dijo Dios, cruzándose de piernas: veo que he creado muchos poetas pero no mucha poesía. Charles Bukowski (EEUU, 1920-1994) (retirado ao Romã de Vidro) Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005
Não esquecer.António Gedeão (Prof. Rómulo de Carvalho) Entrevista na Gazeta de Física da Universidade de Coimbra, a não perder. Alguns poemas no Artistas Matemáticos/Matemáticos Artistas. Lição sobre a água, numa página dedicada a poesia sobre o líquido da vida. Alguns poemas na Página de Ciência Viva. Ne me quitte pas Ne me quitte pas Il faut oublier Tout peut s'oublier Qui s'enfuit dÈjý Oublier le temps Des malentendus Et le temps perdu A savoir comment Oublier ces heures Qui tuaient parfois A coups de pourquoi Le coeur du bonheur Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Moi je t'offrirai Des perles de pluie Venues de pays O¿ il ne pleut pas Je creuserais la terre Jusqu'aprËs ma mort Pour couvrir ton corps D'or et de lumiËre Je ferai un domaine O¿ l'amour sera roi O¿ l'amour sera loi O¿ tu seras ma reine Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Je t'inventerai Des mots insensÈs Que tu comprendras Je te parlerai De ces amants lý Qui ont vu deux fois Leurs coeurs s'embraser Je te raconterai L'histoire de ce roi Mort de n'avoir pas Pu te rencontrer Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas On a vu souvent Rejaillir le feu D'un ancien volcan Qu'on croyait trop vieux Il est paraÓt-il Des terres br¿lÈes Donnant plus de blÈ Qu'un meilleur avril Et quand vient le soir Pour qu'un ciel flamboie Le rouge et le noir Ne s'Èpousent-ils pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Je ne vais plus pleurer Je ne vais plus parler Je me cacherai lý A te regarder Danser et sourire Et ý t'Ècouter Chanter et puis rire Laisse-moi devenir L'ombre de ton ombre L'ombre de ta main L'ombre de ton chien Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas Ne me quitte pas. Jacques Brel, também aqui. Impressão Digital Os meus olhos são uns olhos, e é com esses olhos uns que eu vejo no mundo escolhos, onde outros, com outros olhos, nao vêem escolhos nenhuns. Quem diz escolhos, diz flores! De tudo o mesmo se diz! Onde uns vêem luto e dores, uns outros descobrem cores do mais formoso matiz. Pelas ruas e estradas onde passa tanta gente, uns vêem pedras pisadas, mas outros gnomos e fadas num halo resplandecente!! Inutil seguir vizinhos, querer ser depois ou ser antes. Cada um é seus caminhos! Onde Sancho vê moinhos, D.Quixote vê gigantes. Vê moinhos? São moinhos! Vê gigantes? São gigantes! António Gedeão Encontrado aqui. Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005
Homem Inútil definir este animal aflito. Nem palavras, nem cinzéis, nem acordes, nem pincéis são gargantas deste grito. Universo em expansão. Pincelada de zarcão desde mais infinito a menos infinito. António Gedeão, Poemas Escolhidos, Edições Sá da Costa, Lisboa, 2002. (poema enviado pela Rita. Obrigado.) Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005
De um coração para outro Tão curta a distância - de um coração para outro. Se me sinto a mim, aos meus desejos, porque não a ti e os teus? Milhões de olhos buscam e não conseguem encontrar o outro. Cada um evita o outro, como aranhas famintas. Quem não carrega no seu seio amor, gratidão a outros? Deixa-me confessar abertamente o meu desejo por ti! E como uma ponte abarcando mil terras que te separam de mim, deixa-me, eu próprio, deitar-me para te alcançar Abraham Joshua Heschel, (1907 - 1972), rabino, filósofo e poeta. Retirado ao Rua da Judiaria Ausência Num deserto sem água Numa noite sem lua Num país sem nome Ou numa terra nua Por maior que seja o desespero Nenhuma ausência é mais funda do que a tua. Sophia de Mello Breyner Andresen (enviado pela Susana) A concha A minha casa é concha. Como os bichos Segreguei-a de mim com paciência: Fechada de marés, a sonhos e a lixos, O horto e os muros só areia e ausência. Minha casa sou eu e os meus caprichos. O orgulho carregado de inocência Se às vezes dá uma varanda, vence-a O sal que os santos esboroou nos nichos. E telhadosa de vidro, e escadarias Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso! Lareira aberta pelo vento, as salas frias. A minha casa... Mas é outra a história: Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço, Sentado numa pedra de memória. (Vitorino Nemésio), no Abrupto Terça-feira, Fevereiro 01, 2005
Sonnets from the Portuguese XLIII How do I love thee? Let me count the ways. I love thee to the depth and breadth and height My soul can reach, when feeling out of sight For the ends of Being and ideal Grace. I love thee to the level of everyday's Most quiet need, by sun and candle-light. I love thee freely, as men strive for Right; I love thee purely, as they turn from Praise. I love thee with the passion put to use In my old griefs, and with my childhood's faith. I love thee with a love I seemed to lose With my lost saints, - I love thee with the breath, Smiles, tears, of all my life! - and, if God choose, I shall but love thee better after death. (Elizabeth Barrett Browning), tirado ao Abrigo da Pastora Sábado, Janeiro 29, 2005
POEMA XVIII Impetuoso, o teu corpo é como um rio onde o meu se perde. Se escuto, só oiço o teu rumor. De mim, nem o sinal mais breve. Imagem dos gestos que tracei, irrompe puro e completo. Por isso, rio foi o nome que lhe dei. E nele o céu fica mais perto. Eugénio de Andrade, retirado ao Fumaças A Cidade do Massacre Haim Nahman Bialik Levanta-te agora e vai à cidade do massacre; Passeia pelos seus pátios; Com a tua mão toca, e com os olhos da tua cara olha nas árvores, nas pedras, nos muros, na cale os pingos de sangue e os miolos secos dos mortos. Vai depois às ruínas, onde se estendem as paredes fendidas, onde cresce o vazio e maior cresce a brecha; Passa sobre a lareira despedaçada, alcança as paredes quebradas cujos tijolos queimados e estéreis, cujas pedras carbonizadas revelam as bocas abertas dessas feridas, que nenhum remendo alguma vez remendará, ou cura curará. Ali penas afundarão os teus pés, e tropeçarás em destroços duplamente destroçados, pergaminhos empilhados em manuscritos. Fragmentos outra vez fragmentados. Não pares neste caos; segue o teu caminho. O perfume dos rebentos de acácias virá trazido pelo vento e metade das suas flores serão penas, que exalam o odor do sangue. E, mortificando-te, estranhos incensos trarão. Banindo o teu asco, toda a beleza da Primavera, os mil raios dourados do sol, descerá sobre a tua maldição. Porque Deus chamou o Massacre e a Primavera juntos; O assassino matou, as flores desabrocharam, e depois veio o tempo ameno e o sol. Vai depois a um quintal, observa o monte. Sobre o monte estão dois decepados: Um judeu e o seu cão de caça. Golpeados com o mesmo machado, os dois, arremessados para a mesma pilha onde porcos buscam estrume. Amanhã a chuva lavará os seus sangues misturados para os riachos, e perder-se-ão em pilhas de lixo, em poças estagnadas, em lama. O seu grito não será ouvido. E tudo será como sempre foi. Sobe até ao sótão, caminha com pés e mãos; Observa a sombra da morte erguida entre as sombras. Ali no canto funesto, ali no esconderijo sombrio, numerosos olhos posarão em ti atravessando o silêncio triste. Estas são as almas do espírito dos mártires, Juntas, finalmente, sob estas vigas e dentro destes buracos ignóbeis. O machado encontrou-as aqui, e para cá vieram selar com o último olhar, com o último sopro, a agonia das suas vidas, o terror das suas mortes. Fantasmas que tombam e tropeçam, vieram aqui encolher-se. O seu silêncio chora e são os seus olhos que clamam: Porque razão, Senhor, e porquê? É um silêncio que só Deus pode suportar. Levanta então os teus olhos para o tecto; não há lá nada, a não ser um seguro silêncio suspenso nas traves. Interroga a aranha no seu esconderijo. Os seus olhos viram todas estas coisas; E com a sua teia ela pode desenrolar um relato horrendo aos ouvidos dos homens: uma história de ventres rasgados, de narinas pregadas, de crânios e ossos esmagados e derramados. De homens assassinados pendurados nas traves. E de um recém-nascido arremessado ao lado da mãe trespassada por uma lança; De como um punhal cortou ao meio a palavra de uma criança, ouviu-se ma, mas mamã nunca chegou a formar-se. Ó, ainda agora os seus olhos me pedem explicações do relato que a aranha reconta, histórias que perfuram o cérebro, histórias que te cortam o corpo, o espírito, a alma, da vida, para sempre. Então vais implorar ao teu espírito ¿ Pára, chega! Asfixia a raiva que te sobe a garganta, enterra estas coisas malditas, bem fundo no teu peito, antes que o coração te estoure. Depois deixarás estes lugares e partirás ¿ olha! ¿ A terra é como era, o sol brilha ainda: É um dia como qualquer outro. Desce depois às adegas da cidade, aqui violaram as virginais filhas das gentes, onde sete bárbaros se atiraram às mulheres, a mãe à vista da filha, a filha à vista da mãe, antes da matança, durante a matança, depois da matança. Toca com teus dedos o forro manchado, sente a almofada ensanguentada, foi aqui que as bestas selvagens com machados sangrentos nas patas obrigaram as tuas filhas a sucumbir... Esmagadas na vergonha, viram tudo; Não arrancaram os olhos; Não esmagaram a cabeça contra paredes. Talvez, talvez, as testemunhas buscaram nos corações orações: Um milagre, Senhor, poupa a minha pele mais um dia! Vem, agora, levar-te-ei aos seus esconderijos, Às latrinas e chiqueiros onde se ocultaram os herdeiros dos Hasmoneanos, com joelhos trémulos, escondidos e agachados ¿ os filhos dos Macabeus! A semente de santos, a prole dos leões! Que, amontoados em multidões nos santuários da humilhação, tanto santificaram o Meu nome! Fugiram a fuga dos ratos, o correr das carochas foi a sua fuga; morreram como cães e morreram! E, na manhã seguinte, depois da noite terrível o filho que não foi morto encontrou no chão o cadáver desprezado do seu pai. Porque razão, Senhor, e porquê? Exausta e gasta, uma escura Shekinah Corre para cada canto sem encontrar descanso; Deseja chorar, mas o choro não vêm; Quer rugir; emudeceu. Com a cabeça debaixo da asa, a asa estendida sobre as sombras dos mártires mortos, as suas lágrimas vertidas em silêncio e penumbra. Tu, também, filho do homem, fecha agora o portão; Fecha-te na escuridão, é tua agora esta morgue; Tardando ali serás uno com a dor e a angustia e enche de mágoa o teu coração por todos os seus dias. Então, no dia da tua própria desolação parecerá um refúgio, pousado em ti como maldição, uma emboscada de demónio, o assombrar de um pesadelo, Ó, arrastando-o no teu coração, pela extensão do mundo quererás proclamá-lo, falar dele mas os teu lábios não encontrarão palavras. Vai além dos subúrbios, chega ao cemitério. Não deixes que homem algum te veja; chega só, Um lugar de campas santas e pedra-mártir. Chega-te perto do solo revolvido e fresco. O silêncio tomará conta de ti, O teu coração enfraquecerá com pena e vergonha, mas não deixarei que uma lágrima caia dos teus olhos. Endurecerei o teu coração, não te permitirei um suspiro. Olha, vê os bezerros mortos, massacrados; Há algum preço para a sua morte? Como deve ser pago esse preço? Perdoai, humilhados da terra, o vosso é um Senhor pobre! Pobre foi Ele em vida, e pobre continua ainda. Quando à minha porta vieres buscar recompensa, abri-la-ei de par em par: Vejam, perdi a grandeza dos Meus altos domínios. Sofro por vós, meus filhos. O meu coração entristece por vós. Os vossos mortos morreram em vão; e nem eu nem tu sabemos porque morreste ou porque razão, por quem, ou porque leis; As tuas mortes são sem razão; as tuas vidas são sem causa. Volta agora o teu olhar dos mortos, vou guiar-te do cemitério aos teus irmãos vivos, e virás, com os da tua própria geração, à sinagoga, e no dia do jejum, para ouvir o seu grito de agonia, as suas eternas lágrimas. A pele arrefecerá, os cabelos da tua cabeça ficarão de pé, e serás movido, trémulo, pelo medo. Assim geme um povo perdido. Olha nos seus corações ¿ observa o triste vazio onde nem a vingança consegue crescer, mas ainda assim, nos seus lábios não se levantam altas maldições, ou juramentos de blasfémia. Fala com eles, implora-lhes raiva! Deixa que contra mim levante a mão ultrajada, Deixa que exijam! Exijam retribuição pelos humilhados de todos os séculos e todos os tempos! Que se atirem punhos como pedras Contra os céus e o Trono celeste! E tu, também, não lhes mostres misericórdia, não lhes toques nas feridas; Não deites nem mais uma gota no seu cálice. Onde tocasses encontrarias uma ferida, as suas carnes são todas chaga. Porque com resignação enfrentaram a dor e com a humilhação fizeram pazes, de que lhes servirá a tua consolação? São coitados demais para evocar em ti desprezo. São arruinados demais para evocar em ti compaixão. Deixa-os ir, então, homens nascidos na aflição, enlutados e esmagados sob o peso que os oprime. Parte então das suas casas e lares podridão nos ossos, corrupto coração. E vai até à estrada, encontrarás ai estes homens destroçados pela mágoa, suspirando e gemendo, às portas dos ricos proclamando as suas feridas, como mercadoria de pedinte, A um a cabeça espancada, outro os membros enfermos, um mostra um braço ferido, outro os ossos partidos. E todos têm olhos que são os olhos de escravos, Escravos açoitados em frente dos donos; cada um suplica, cada um deseja: Recompensa-me, Senhor, pelo meu crânio quebrado. Recompensa-me, Senhor, pelo meu pai martirizado! E assim compaixão imploram. Porque és agora o que sempre foste Como estendeste a mão assim a estendes, e como foste desgraçado, assim desgraçado és. Que fazes aqui, filho do homem? Levanta-te, foge para o deserto! Leva para lá contigo o cálice de desgosto! Levai a sua alma, rasga-a em mil retalhos! Com raiva impotente, com coração deformado! Verte a tua lágrima sobre rochas áridas e manda o seu grito amargo à tempestade! Haim Nahman Bialik (1873-1934). Poeta. Judeu nascido na Rússia. Falecido em Tel Aviv, é conhecido como o Poeta Nacional de Israel. ¿A Cidade do Massacre¿ foi escrito por Bialik em homenagem às vítimas do Pogrom de Kishinev, ocorrido em 1903. A sua profunda e emotiva descrição de um sofrimento inimaginável torna-o extraordinariamente apropriado para recordar Auschwitz. [tradução preliminar da chamada ¿versão curta¿ do poema], retirado ao Rua da Judiaria (homenagem singela aos que sofreram) Terça-feira, Janeiro 25, 2005
Os ombros suportam o mundo Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. És todo certeza, já não sabes sofrer. E nada esperas de teus amigos. Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns, achando bárbaro o espetáculo prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação. (Carlos Drummond de Andrade), tirado ao Abrupto ... Deixem-nos o planeta despido de árvores de estrelas a nós os poetas que estrangulámos todos os pássaros para ouvirmos mais alto o silêncio dos homens ... José Gomes Ferreira "panfleto contra a paisagem" VI antologia poética diabril editora, na Romã de Vidro Sábado, Janeiro 22, 2005
Pedaço de mim Chico Buarque/1977-1978 Para a peça Ópera do malandro, de Chico Buarque Oh, pedaço de mim Oh, metade afastada de mim Leva o teu olhar Que a saudade é o pior tormento É pior do que o esquecimento É pior do que se entrevar Oh, pedaço de mim Oh, metade exilada de mim Leva os teus sinais Que a saudade dói como um barco Que aos poucos descreve um arco E evita atracar no cais Oh, pedaço de mim Oh, metade arrancada de mim Leva o vulto teu Que a saudade é o revés de um parto A saudade é arrumar o quarto Do filho que já morreu Oh, pedaço de mim Oh, metade amputada de mim Leva o que há de ti Que a saudade dói latejada É assim como uma fisgada No membro que já perdi Oh, pedaço de mim Oh, metade adorada de mim Lava os olhos meus Que a saudade é o pior castigo E eu não quero levar comigo A mortalha do amor Adeus (Oferta da Silvia Chueire, que muito agradecemos) Sexta-feira, Janeiro 21, 2005
D. Sebastião [n. 20 Janeiro de 1554] "Louco, sim, louco, porque quis grandeza Qual a Sorte a não dá. Não coube em mim minha certeza; Por isso onde o areal está Ficou meu ser que houve, não o que há. Minha loucura, outros que me a tomem Com o que nela ia. Sem a loucura que é o homem Mais que a besta sadia, Cadáver adiado que procria?" [F. Pessoa, in Mensagem], retirado ao Almocreve "Ser navegador ... Ser navegador Não é termos sido é sermos ainda É irmos a Vénus ou seja onde for Esperar os cornos onde o espaço finda É haver Camões como uma revolta E haver Gil Vicente como um desafio A esse Encoberto que nunca mais volta Porque é pretexto do nosso vazio" [Natália Correia, in De Comunicação, 1959], retirado ao Almocreve Cantiga do Ódio O amor de guardar ódios agrada ao meu coração, se o ódio guardar o amor de servir a servidão. Há-de sentir o meu ódio quem o meu ódio mereça: ó vida, cega-me os olhos se não cumprir a promessa. E venha a morte depois fria como a luz dos astros: que nos importa morrer se não morrermos de rastros? (Carlos de Oliveira), tirado ao Abrupto Quinta-feira, Janeiro 20, 2005
Lição de Biologia No reino animal não há cores necessárias mas animais do reino utilizam cores convenientes. É velho o mimetismo sabido de animais sem raciocínio que atacam uns e outros se defendem nunca (curiosamente) por a cor ser aquela ou outra diferente mas porque se defende ou apetece a carne submersa em qualquer cor. Resulta disto o simples corolário de ser conveniente a certos apetites usar o mimetismo e abocanhar em nome duma pele a pelo e o resto de quem passa perto. Jogos de luz de pronto se diriam estes que na luz entretecem cumplicidades de cores não fossem os hábitos sombrios destes predadores. Tantos mais que se conhece serem daltónicas as suas fomes pois notícia não há de que algum rejeite por almoço um animal da sua mesma cor. Diferencia-os o diâmetro das fauces o grau do apetite é rigorosamente infindo. E isto os mata que não há digestões para fazer o quilo de tais fomes. Inevitavelmente, os sáurios empaturram e, de comerem sempre, ficam duma cor definitiva em todos os mortais. Leite de Vasconcelos, tirado ao Maschamba Escrevo já com a noite em casa. Escrevo sobre a manhã em que escutava o rumor da cal ou do lume, e eras tu somente a dizer o meu nome. Escrevo para levar à boca o sabor da primeira boca que beijei a tremer. Escrevo para subir às fontes. E voltar a nascer. Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede, Fundação Eugénio de Andrade, Porto, 2001 roubado ao Nocturno com Gatos As Amoras O meu país sabe às amoras bravas no verão. Ninguém ignora que não é grande nem inteligente, nem elegante o meu país, mas tem esta voz doce de quem acorda cedo para cantar nas silvas. Raramente falei do meu país, talvez nem goste dele, mas quando um amigo me traz amoras bravas os seus muros parecem-me brancos reparo que também no meu país o céu é azul. Eugénio de Andrade, roubado ao Linha de Cabotagem Respiro o teu corpo Respiro o teu corpo: sabe a lua-de-água ao amanhecer, sabe a cal molhada, sabe a luz mordida, sabe a brisa nua, ao sangue dos rios, sabe a rosa louca, ao cair da noite sabe a pedra amarga, sabe à minha boca. Eugénio de Andrade * Parabéns pelos 82 anos de vida. Aguardamos mais. Quarta-feira, Janeiro 19, 2005
REQUIEM POR MIM Aproxima-se o fim. E tenho pena de acabar assim, Em vez de natureza consumada, Ruína humana. Inválido do corpo E tolhido da alma. Morto em todos os órgãos e sentidos. Longo foi o caminho e desmedidos Os sonhos que nele tive. Mas ninguém vive Contra as leis do destino. E o destino não quis Que eu me cumprisse como porfiei, E caísse de pé, num desafio. Rio feliz a ir de encontro ao mar Desaguar, E, em largo oceano, eternizar O seu esplendor torrencial de rio. Miguel Torga Coimbra, 10 de Dezembro de 1993, «roubado» ao Fumaças. * A devida homenagem. Simples, mas com o pensamento no homem que foi Homem, que foi gente, que foi pedra, solo, árvore, sangue a pulsar pelo seu povo, no seu povo. Pelo Homem que foi povo. E raramente gosto de usar a palavra povo, a não ser quando ela encerra este sentimento do que é nosso, daquilo que nos constitui, da nossa massa, do nosso sangue. Dos nossos defeitos levados com graça, mas à procura da mudança, da melhoria, sem esquecer o respeito pela gente, pelas pessoas, o amor pelo outro. A procura do entendimento. Quem somos nós afinal? Quem somos nós como povo? Um abraço ao homem que lia os seus poemas com o sotaque das ventanias serranas, por cima do granito em que eram esculpidos. Lua Adversa Tenho fases, como a lua. Fases de andar escondida, fases de vir para a rua... Perdição da minha vida ! Perdição da vida minha ! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha. Fases que vão e que vêm, no secreto calendário que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso. E roda a melancolia seu interminável fuso ! Não me encontro com ninguém (tenho fases, como a lua...) No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua... E, quando chega esse dia, o outro desapareceu... Cecília Meireles, roubado ao Planando II Segunda-feira, Janeiro 17, 2005
TOADA DO LADRÃO A mim não me roubaram Porque eu nada tinha. Mas roubaram tudo À minha vizinha. Vejam os senhores: Roubaram-lhe a ela A filha mais grácil, A filha mais bela. Nem na sua casa, Nem na freguesia, Sequer no concelho, Melhor não havia. Prendada, bonita... E depois... uns modos De matar a gente, De prender a todos. Dizia a vizinha Que era o seu tesoiro; Que valia mais Que a prata e que o oiro. Que a não trocaria Por coisa nenhuma; Que filhas assim Só havia uma. Pois hoje um ladrão Que há muito a mirava Entrava-lhe em casa Para sempre a levava. É a minha vizinha Dona de solares E de longas terras Com rios e pomares. E de jóias raras Que ninguém mais tinha, Ei-la num instante Pobrinha... pobrinha... (Tem pomares ainda, Tem jóias, tem oiro... Mas de que lhe servem Sem o seu tesoiro?) - Vizinha e senhora, Não me queira mal! Se há ladrões felizes Sou o mais feliz Que há em Portugal. Sebastião da Gama, tirado ao Fumaças Domingo, Janeiro 16, 2005
In the Next Galaxy Things will be different. No one will lose their sight, their hearing, their gallbladder. It will be all Catskills with brand new wrap-around verandas. The idea of Hitler will not have vibrated yet. While back here, they are still cleaning out pockets of wrinkled Nazis hiding in Argentina. But in the next galaxy, certain planets will have true blue skies and drinking water. (Ruth Stone), «roubado» ao Abrupto. Aqui colocado também para homenagear a ida a Titã. Sábado, Janeiro 15, 2005
Samba e Amor Eu faço samba e amor até mais tarde E tenho muito sono de manhã Escuto a correria da cidade, que arde E apressa o dia de amanhã De madrugada a gente ainda se ama E a fábrica começa a buzinar O trânsito contorna a nossa cama, reclama Do nosso eterno espreguiçar No colo da bem-vinda companheira No corpo do bendito violão Eu faço samba e amor à noite inteira Não tenho a quem prestar satisfação Eu faço samba e amor até mais tarde E tenho muito mais o que fazer Escuto a correria da cidade, que alarde Será que é tão difícil amanhecer? Não sei se preguiçoso ou se covarde Debaixo do meu cobertor de lã Eu faço samba e amor até mais tarde E tenho muito sono de manhã Chico Buarque de Hollanda O Ganso Selvagem (Oswaldo Montenegro) O ganso selvagem na borda do dia Costura seu vôo por cima do mar Faz amor com o vento E o sol, por magia Toca suas penas querendo dançar E dança na lua a tal profecia Que faz de dois corpos um corpo a voar E faz do seu vôo dança e magia E marca no dia a pintura que riscou no ar A bomba atômica e=mc2 Einstein Deusa, visão dos céus que me domina ...tu que és mulher e nada mais! (Deusa, valsa carioca.) I Dos céus descendo Meu Deus eu vejo De pára-quedas? Uma coisa branca Como uma fôrma De estatuária Talvez a fôrma Do homem primitivo A costela branca! Talvez um seio Despregado à lua Talvez o anjo Tutelar cadente Talvez a Vênus Nua, de clâmide Talvez a inversa Branca pirâmide Do pensamento Talvez o troço De uma coluna Da eternidade Apaixonado Não sei indago Dizem-me todos É A BOMBA ATÔMICA. Vem-me uma angústia. Quisera tanto Por um momento Tê-la em meus braços A coma ao vento Descendo nua Pelos espaços Descendo branca Branca e serena Como um espasmo Fria e corrupta Do longo sêmen Da Via Láctea Deusa impoluta O sexo abrupto Cubo de prata Mulher ao cubo Caindo aos súcubos Intemerata Carne tão rija De hormônios vivos Exacerbada Que o simples toque Pode rompê-la Em cada átomo Numa explosão Milhões de vezes Maior que a força Contida no ato Ou que a energia Que expulsa o feto Na hora do parto. II A bomba atômica é triste Coisa mais triste não há Quando cai, cai sem vontade Vem caindo devagar Tão devagar vem caindo Que dá tempo a um passarinho De pousar nela e voar... Coitada da bomba atômica Que não gosta de matar! Coitada da bomba atômica Que não gosta de matar Mas que ao matar mata tudo Animal e vegetal Que mata a vida da terra E mata a vida do ar Mas que também mata a guerra¿ Bomba atômica que aterra! Pomba atônita da paz! Pomba tonta, bomba atômica Tristeza, consolação Flor puríssima do urânio Desabrochada no chão Da cor pálida do helium E odor de rádium fatal L¿lia mineral carnívora Radiosa rosa radical. Nunca mais, oh bomba atômica Nunca, em tempo algum, jamais Seja preciso que mates Onde houve morte demais: Fique apenas tua imagem Aterradora miragem Sobre as grandes catedrais: Guarda de uma nova era Arcanjo insigne da paz! III Bomba atômica, eu te amo! és pequenina E branca como a estrela vespertina E por branca eu te amo, e por donzela De dois milhões mais bélica e mais bela Que a donzela de Orleans; eu te amo, deusa Atroz, visão dos céus que me domina Da cabeleira loura de platina E das formas aerodivinais ¿ Que és mulher, que és mulher e nada mais! Eu te amo, bomba atômica, que trazes Numa dança de fogo, envolta em gazes A desagregação tremenda que espedaça A matéria em energias materiais! Oh energia, eu te amo, igual à massa Pelo quadrado da velocidade Da luz! alta e violenta potestade Serena! Meu amor, desce do espaço Vem dormir, vem dormir no meu regaço Para te proteger eu me encouraço De canções e de estrofes magistrais! Para te defender, levanto o braço Paro as radiações espaciais Uno-me aos líderes e aos bardos, uno-me Ao povo, ao mar e ao céu brado o teu nome Para te defender, matéria dura Que és mais linda, mais límpida e mais pura Que a estrela matutina! Oh bomba atômica Que emoção não me dá ver-te suspensa Sobre a massa que vive e se condensa Sob a luz! Anjo meu, fora preciso Matar, com tua graça e teu sorriso Para vencer? Tua enérgica poesia Fora preciso, oh deslembrada e fria Para a paz? Tua fragílima epiderme Em cromáticas brancas de cristais Rompendo? Oh átomo, oh neutrônio, oh germe Da união que liberta da miséria! Oh vida palpitando na matéria Oh energia que és o que não eras Quando o primeiro átomo incriado Fecundou o silêncio das Esferas: Um olhar de perdão para o passado Uma anunciação de primaveras! Vinicius de Moraes in Antologia Poética in Poesia completa e prosa: "O encontro do cotidiano" Sexta-feira, Dezembro 31, 2004
Lição sobre a água Este líquido é água. Quando pura é inodora, insípida e incolor. Reduzida a vapor, sob tensão e a alta temperatura, move os êmbolos das máquinas que, por isso, se denominam máquinas de vapor. É um bom dissolvente. Embora com excepções mas de um modo geral, dissolve tudo bem, ácidos, bases e sais. Congela a zero graus centesimais e ferve a 100, quando à pressão normal. Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão, sob um luar gomoso e branco de camélia, apareceu a boiar o cadáver de Ofélia com um nenúfar na mão. António Gedeão, Poesias completas No Porto de Abrigo Quinta-feira, Dezembro 30, 2004
Amigo Mal nos conhecemos Inaugurámos a palavra amigo! Amigo é um sorriso De boca em boca, Um olhar bem limpo, Uma casa, mesmo modesta, que se oferece. Um coração pronto a pulsar Na nossa mão! Amigo (recordam-se, vocês aí, Escrupulosos detritos?) Amigo é o contrário de inimigo! Amigo é o erro corrigido, Não o erro perseguido, explorado. É a verdade partilhada, praticada. Amigo é a solidão derrotada! Amigo é uma grande tarefa, Um trabalho sem fim, Um espaço útil, um tempo fértil, Amigo vai ser, é já uma grande festa! Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca No Porto de Abrigo Meu Nosso Senhor, ando eu molestado com todos os vícios que me foste dar. Sou dos putanheiros o mais porfiado; não menos me apraz os dados jogar; e é grande o prazer que sinto em errar por estas vielas, do mundo apartado. Se de melhor vida fora venturoso, lograra mais preço e mais honras ter. Mas deste foder mais me apraz o gozo; e o destas tabernas, e o deste beber. Já que outra virtude não posso valer, valha-me viver contente e viçoso. Se não valho nada e não alimento esperança de alguma virtude alcançar, não quero perder este arreitamento, tão pouco estas putas e este disputar. Por outras fronteiras não quero eu andar, trocando o meu viço por agastamento. E muitos mais vícios acrescentaria, que cúmplices são do meu desmerecer. Nunca frequentei a tafularia (jogo), sem ali desordens, distúrbios fazer; e, cobardemente, ponho-me a mexer buscando agasalho entre a putaria. Quando consolado de muito gozar, merendo, e, depois, ponho-me a caminho, aí deixo as putas meus vícios gabar, louvando-me as manhas e o descaminho. (Martim Soares) No Diz que Disse.com É urgente o amor É urgente um barco no mar. É urgente destruir certas palavras, Ódio, solidão e crueldade, Alguns lamentos, Muitas espadas. É urgente inventar alegria, Multiplicar os beijos, as searas, é urgente descobrir rosas e risos e manhãs claras. Cai o silêncio no pano e a luz impura, até doer. É urgente o amor, é urgente permanecer. (Eugénio de Andrade) * Bom dia. Quarta-feira, Dezembro 29, 2004
Contradições Tanto de meu estado me acho incerto, que em vivo ardor tremendo estou de frio; sem causa, juntamente choro e rio; o mundo todo abarco e nada aperto. É tudo quanto sinto um desconcerto; da alma um fogo me sai, da vista um rio; agora espero, agora desconfio; agora desvario, agora acerto. Estando em terra, chego ao céu voando; numa hora acho mil anos, e é de jeito que em mil anos não posso achar uma hora. Se me pergunta alguém porque assim ando, respondo que não sei; porém suspeito que só porque vos vi, minha Senhora. Luís de Camões. (retirado do das letras) Segunda-feira, Dezembro 27, 2004
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27 de Dezembro de 2005